terça-feira, 27 de maio de 2008

BCE “versus” Federal Reserve: diferenças no passado; diferenças no presente

In "Jornal de Negócios":

Em 1922, uma hiperinflação impressionante atacou a economia alemã, acabada de sair de uma guerra mundial, deixando marcas que ainda hoje se podem perceber. O cinema e as artes retrataram cenas desse enorme drama que ainda actualmente constitui uma amargura instalada na profundidade e na complexidade da alma germânica.

Trata-se de um facto histórico que de forma alguma um verdadeiro alemão esquece e que jamais deixará de fazer esforços para que se não repita e cuja imagem célebre é a do filme, creio que de Charlot, mostrando um empregado da construção civil a dirigir-se ao balcão de venda do passe social e a pagar o mesmo com um “monte de notas de banco” transportadas num carrinho de mão.

Por exigência germânica e face ao peso desse País na União Monetária Europeia o principal objectivo do Banco Central Europeu, que conseguiu, “malgré tout”, passando por cima do venerando Deutsche Bundesbank, ser o Banco Central da União em que a Alemanha se integrou e por tudo isso se instalou em Frankfurt foi o de estabilidade dos preços.

Os alemães consentiram uma moeda única, desde que esta se pautasse pelas regras por que se pautava o “deutsche mark” e todos os parceiros obedecessem a “um código de convergência económica,” respeitando-o, sem dúvidas existenciais e com penalidades pesadas. (*)

Em 1929, nos EUA, teve-se uma prolongada e alastrada Grande Depressão, de características contrárias às da hiperinflação alemã, em que o desemprego e a recessão desembocaram numa loucura de luta pelo trabalho, elevação do valor da moeda, desinvestimento, estagnação e queda da economia, um rol de situações de miséria e de convite ao vício e às experiências “gangsterianas”, que só a “forte alma americana” conseguiu diluir, sem deixar de exportar o que de pior teve a crise, para o resto do mundo, especialmente a Europa.

Numa situação de queda brusca da liquidez e do volume de moeda, o Federal atacou o problema condicionando o preço (taxa de juro) e a oferta de moeda. Como se sabe, o FRB foi mais tarde acusado, por isso mesmo, de não ter atacado as causas do fenómeno (a crise de liquidez) e de ter contribuído antes para o agravar, com uma “incorrecta” e inoportuna “tight money policy”. (**)

O Federal Reserve System tem hoje como objectivo, além da estabilidade de preços, o crescimento económico equilibrado.

Será que nestas duas áreas geográficas o passado e as suas principais crises condicionaram a sua propensão para uma (diferente) valorização das medidas de política a adoptar em crises como a actual?

Na actualidade, Alan Greenspan (***), ex-presidente do FED de New York, refere os êxitos do Banco Central Europeu (e do seu presidente, Jean-Claude Trichet). Após comentar a sua surpresa pela capacidade de convergência dos 13 membros iniciais da nova área monetária, salienta o contraste entre a “única obrigação do BCE”, a estabilidade de preços, para uma região que produz mais de 1/5 do PIB mundial e o objectivo mais lato, americano, de estabilidade de preços com procura de um crescimento equilibrado.

O que mais o impressiona parece ser o facto de o Tratado de Maastricht e a figura do Pacto de Estabilidade e Crescimento, ao subtraírem a política monetária ao controlo dos governos e restringir o nível dos défices orçamentais, terem criado, ao fim e ao cabo, dispositivos automáticos de ajustamento de mercado.

A verdade é que o euro já conseguiu, segundo ele, ocupar 25% de lugar no cabaz das moedas de reserva cambial, relegando o dólar para 66% (Setembro de 2006).

O abaixamento das taxas de juro no passado recente foi a consequência desta subida de importância do euro nas reservas. O mesmo sucedera já com o dólar, consentindo um crescimento da economia americana.

Contudo esta mesma causa, agora, leva a estados de alma (e de opinião) diferentes. Enquanto que do lado de lá do Atlântico e por causa da “crise de liquidez” a FED não quer correr de novo riscos de ser acusada de dificultar, e tem produzido nova liquidez e baixado taxas de juro, o seu colega europeu não pára de as fazer subir, com receio de uns 3,6% registados na taxa de inflação homóloga sob controle do BCE e apesar da recomendação recente de Michael Deppler, director do Departamento Europeu do FMI, que na sua apresentação, em Frankfurt, das “Perspectivas Regionais para a Europa” (IV) recomendava vivamente o corte dos juros.

Em reunião do BCE, parece ter havido mesmo quem apontasse a anormal subida de preços do petróleo, como algo que faz lembrar um processo de estagflação, e que de modo algum recomenda facilidades no preço do dinheiro.

Ao mesmo tempo, porém, na Europa da União, mesmo que não necessariamente no espaço do euro, com o argumento de que mais importante é salvar o sistema bancário e auxiliar a confiança na banca, procedeu-se à “nacionalização” (temporária?) do quase falido Northern Rock e projectou-se injectar liquidez em volume substancial para também permitir ao sistema suportar uma situação de “crise de liquidez” na Europa financeira (nos EUA segurou-se o atribulado Bear Sterns e injectou-se liquidez criando novas “facilities”).

Será que pura e simplesmente a coerência não tem de ser encontrada entre o procedimento aqui e ali, adoptando-se as soluções conforme a importância dos receios ou/e conforme as marcas históricas deixadas pelas “outras crises” do lado de lá e do lado de cá do oceano?

Pelo seu interesse e graça referimos ainda, sobre o mesmo assunto, a opinião do professor de Harvard, Ken Rogoff (antigo economista-chefe do FMI, (V) que disse que muitos pensam que “o mundo termina ou em fogo ou em gelo”. O Federal parece temer e pensar que o mundo terminará em fogo; o BCE teme o gelo.

(*) Note-se que após a serena e “consentida” reunificação alemã pagou ela própria, como se esperava, os custos de uma divergência pesada, que a Europa, com condescendência e boa memória política, também consentiu e fez por esquecer.

(**) Sobre esta acusação, dizia Paul Meek (professor do curso para banqueiros centrais da FED nos anos 90, no mandato de Paul Volcker), que se tratava de uma política que poderia ser discutida durante muito tempo e sempre se encontrariam argumentos a favor e contra.

(***) “A ERA DA TURBULÊNCIA”, Alan Greenspan (no Prefácio).

(IV) in “Jornal de Negócios”, de 22 de Abril de 2008. “FMI diz que Trichet terá de cortar juros nos próximos seis meses; responsáveis do BCE discordam da avaliação e admitem ter de subir juros.”

(V ) “Economist”; March 22nd, 2008: “Central banks, a dangerous divergence” (págs. 77).

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