quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Bolsa regista maior ganho dos últimos 12 anos

In "Jornal de Negócios Online":

A bolsa nacional fechou 2009 com a maior valorização anual dos últimos 12 anos, com muitas acções a registarem fortes ganhos, depois de terem sido bastante castigadas em 2008.


O PSI-20 valorizou 33,5% desde o início do ano. A última vez que o índice nacional tinha subido mais foi em 1997, altura em que ganhou 71%.


Este ano foi marcado pela recuperação, com os sectores mais castigados em 2008 a corrigirem das fortes desvalorizações. É o caso da Sonae que liderou as subidas ao avançar 99,08%, depois de no ano passado ter sido a segunda cotada que mais perdeu valor. A Sonaecom não ficou muito atrás e valorizou 92,24%, recuperando da forte queda registada em 2008


Na área da pasta de papel e da construção de sublinhar a Altri, que foi a terceira cotada a valorizar mais (90,69%) e duas construtoras – Cimpor e Teixeira Duarte – quarta e sexta empresa com a maior subida anual. Num ano de recuperação, os preços da pasta subiram, animando a empresa presidida por Paulo Fernandes.


OPA à Cimpor anima desempenho bolsista da cimenteira


Quanto ao sector da construção, a Teixeira Duarte corrigiu as fortes desvalorizações de 2008, bem como a Cimpor, mas apenas em parte, já que a OPA de que foi alvo conduziu a ganhos expressivos. A construtora tinha caído 71,39% em 2008, ficando em terceiro lugar do “ranking”das desvalorizações do PSI-20.


Já a cimenteira fecha o ano a subir 84,74%, 11,8% acima do preço oferecido na OPA. Entre os “pesos pesados”, a Galp Energia liderou ao subir 68,25%, também a corrigir mas o contributo das descobertas de petróleo no Tupi foi igualmente determinante.


Já a EDP não recuperou totalmente das fortes quedas de 2008 (39,71%) ao subir apenas 15,32%, confirmando o seu estatuto mais defensivo, já que no ano passado, situou-se entre as que menos desvalorizaram. A sua participada, EDP Renováveis, acumulou um ganho de 32,52%.


PT e Galp dois dos “pesos pesados” no topo das valorizações em 2009


Quanto ao “peso pesado” Portugal Telecom foi a décima empresa a registar a maior subida (40,36%), um desempenho positivo sobretudo se tivermos em conta que foi a quinta empresa que menos caiu em 2008. Foram várias as casas de investimento a aplaudir a estratégia da operadora em 2009.


Pela positiva uma nota ainda para a Jerónimo Martins que foi a segunda empresa que menos caiu em 2008 (26,48%) e a quinta que mais subiu (75,94%) em 2009. Também esta empresa foi alvo de várias notas positivas ao longo do ano, com muitos analitas a reverem em alta recomendações e ‘target’ para a retalhista. A chave para a continuação do seu crescimento reside na Polónia.


Banca não recupera perdas de 2008


Por outro lado, o BCP não conseguiu recuperar praticamente nada da forte desvalorização de 2008, ano em que afundou 68,98%. O maior banco privado nacional registou o pior desempenho do PSI-20 este ano ao subir apenas 3,68%. No restante sector, o BES não foi além de uma subida de 8,30%, com o BPI a destacar-se entre os bancos ao subir 21,14%.


Na Europa, este sector acumula um ganho anual de 46%, liderando as subidas em 2009.

Ver:

Impresa e Cofina fecham o ano com ganhos superiores a 100%

Matérias-primas vivem melhor ano desde 1971

BCP foi o pior do PSI-20 em 2009

Sonae sobe quase 100% e lidera ganhos no PSI-20 em 2009

Wall Street a caminho do maior ganho dos últimos seis anos

Mercados europeus registam maior valorização desde 1999

Preço do petróleo a caminho do maior ganho anual da última década

Bolsas estiveram perto da hecatombe mas acabaram em forte alta

Bolsa ganhou este ano 17,5 mil milhões de euros

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Está na hora de "casar" John Maynard Keynes com os críticos do monetarismo e do despesismo em finanças públicas

In "Expresso.pt":

Está na hora de "casar" John Maynard Keynes com os críticos do monetarismo e do despesismo em finanças públicas, recomenda o economista da OCDE William White.

Depois de o Keynesianismo ter sido submerso na síntese dos modelos de "equilíbrio geral" que a Grande Recessão mandou para o caixote do lixo, William White, da OCDE, propõe a aproximação aos pontos fortes da corrente de pensamento económico designada por "escola austríaca" que condena os excessos na gestão das finanças públicas por parte dos governos e na política monetária por parte dos bancos centrais ou governos.

O casamento da herança de Keynes, à revelia deste, no século passado, com o formalismo matemático deu mau resultado.

Apesar de o economista de Cambridge ter casado com a bailarina russa Lydia Lopokova, que enviuvou em 1946, os economistas John Hicks (1904-1989), inglês, e Paul Samuelson (1915-2009), americano, empurraram o keynesianismo para uma união de facto com os seus arqui-inimigos neoclássicos, que foi apelidada de "nova síntese neoclássica".

O próprio Keynes numa troca de cartas com Hicks manifestava-se muito céptico sobre a utilidade de tais abordagens formalistas, que esqueciam dois pilares do seu pensamento: a incerteza e o comportamento humano que ele designava por 'animal spirits'.

Agora, propõe-se um novo casamento para Keynes - a procura de uma nova síntese na macroeconomia. Já que a Grande Recessão destes últimos dois anos se encarregou de invalidar a mistura "bastarda", como a mimoseava uma das discípulas inglesas e amigas de Keynes, Joan Robinson.

Procurar "pontes"

William White, presidente do Comité de Economia e Desenvolvimento da OCDE e ex-economista-chefe do Banco de Pagamentos Internacionais, fala, numa entrevista ( pode ser lida em inglês aqui) que nos concedeu, de regressar ao Keynes original e de procurar "pontes" com os pontos fortes de uma outra velha corrente com que o mestre de Cambridge esgrimiu argumentos durante os anos 1930 e 1940, a chamada "escola austríaca".

Nessa corrente foram proeminentes, no século XX, economistas de origem austríaca como o Nobel Friedrich von Hayek (1899-1992) e Ludwig von Mises (1881-1973), mas também o americano Murray Rothbard (1926-1995), que tem um livro reeditado pelo Mises Institute sobre a Grande Depressão americana (America's Great Depression) que contrasta, por exemplo, com a visão keynesiana de John Kenneth Galbraith sobre as causas de 1929 (Crash 1929, traduzido em Portugal pela Gestão Plus).

Em vez das "pontes" entre o keynesianismo e as metodologias de modelação dos neoclássicos, em que se investiu no passado, White insiste que é preciso "uma mudança de paradigma" em que podem desaguar as ideias originais de Keynes e alguns pontos de vista nucleares dos "austríacos".

Arte de cirurgião

O economista da OCDE actua como um cirurgião escolhendo e extraindo como relevantes as críticas muito duras feitas pela "escola austríaca" quer à dinâmica pró-cíclica das intervenções dos bancos centrais e dos governos que acompanharam a vaga de financeirização durante a "bolha", bem como a tentação das políticas anticrise dos governos para estenderem as suas intervenções para além de um período extraordinário.

O risco de transformar o que Keynes considerava como intervenção "anormal" em vício rotineiro tem um custo enorme: o de impedir, no período de depressão, os ajustamentos indispensáveis no tecido económico - particularmente nos sectores oligopolizados com empresas "demasiado gigantes para falirem". "Os estímulos keynesianos pelo lado da procura terão certamente benefícios no curto prazo, mas podem, eventualmente, provocar efeitos menos desejáveis se impedirem os ajustamentos necessários nas capacidades de produção", refere White.

Por isso, o economista da OCDE tende a construir um elo entre Hayek e Keynes - onde a maioria, de um lado e de outro da barricada teórica, tem visto contradições antagónicas de princípio, White vê a possibilidade de "um corredor contínuo" utilizando o melhor de cada um dos lados. Cirurgia que os integristas de cada uma das correntes não apreciarão.

A intenção de White é, claramente, preencher junto dos práticos - dos economistas dos bancos centrais e das equipas ministeriais, dos especialistas dos partidos e dos think tank - o vazio deixado pela perda de confiança nos modelos de equilíbrio geral.

CURTA ENTREVISTA A William White

P: A sua ideia é extrair cirurgicamente da escola austríaca os pontos fortes da crítica aos excessos do monetarismo e do despesismo governamental e juntá-los ao pensamento original de Keynes?

R: Sim, basicamente. Creio que tanto Hayek como Anthony Fisher (1915-1988) como Keynes tinham razão. Hayek recomendava que, em primeiro lugar, não nos metêssemos nesses sarilhos. Fisher juntava, no entanto, que a fase descendente do ciclo tinha sido pior do que Hayek imaginava. E Keynes tinha razão ao dizer que, nessas circunstâncias extraordinárias, havia um papel para a política monetária, e sobretudo orçamental. Sublinho que, para Keynes, tratava-se de agir em circunstâncias extremas.

P: O ponto de vista "austríaco" pode ser, também, útil contra os excessos de subsidiação em períodos de depressão em que é necessário proceder a reajustamentos no tecido económico?

R: Acho que a dependência excessiva das ferramentas macroeconómicas empurrou-nos para o mau caminho. Na verdade, muitos usam esses estímulos para evitar a necessidade de uma reestruturação e os problemas relacionados acabaram por tomar proporções inimagináveis com o tempo. Temo que é a situação em que estamos hoje.

Adaptado de artigo publicado na edição impressa de 24/12/09.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Cobre e açúcar em destaque entre as subidas das matérias-primas

In "Jornal de Negócios Online":

sugar_peq A generalidade das matérias-primas está a negociar hoje em alta nos mercados internacionais, com grande destaque para o cobre, que atingiu máximos de 15 meses, e para o açúcar, que está no valor mais alto das últimas duas décadas.


O cobre segue a ganhar 2,6%, para 7.253 dólares por tonelada no mercado londrino, que ontem esteve encerrado devido a feriado. Este metal industrial está a caminho do seu melhor desempenho anual desde pelo menos 1986, segundo os dados da Bloomberg. O cobre está a ser impulsionado pelas boas previsões de crescimento económico na China, maior utilizador deste metal, e também pelo anúncio de greves no sector do cobre no Chile.


Os trabalhadores da mina chilena da Codelco em Chuquicamata, segunda maior mina do mundo, iniciarão uma greve no dia 31 de Dezembro, a menos que a empresa prossiga as conversações quanto aos salários. A Codelco é a maior produtora de cobre do mundo. Por outro lado, na fundição de cobre da região chilena de Altonorte, pertencente à Xstrata, começou ontem uma greve devido ao fracasso nas negociações para novos contratos salariais.


Os restantes cinco metais de base – chumbo, alumínio, zinco, níquel e estanho - negociados no LME seguem também em alta. O cobre, o chumbo e o zinco mais do que duplicaram de preço este ano nos mercados, impulsionados pela convicção de retoma da economia mundial.


O açúcar refinado está a subir 1,9%, para 707,20 dólares por tonelada, no LIFFE de Londres, o que corresponde ao mais alto valor desde pelo menos 1989.


Petróleo perto de máximos de cinco semanaspetroleo2_pq


Também o petróleo está em alta, perto de máximos de cinco semanas, animado pelas baixas temperaturas nos EUA, pelos tumultos no Irão e pelas perspectivas de uma queda das reservas norte-americanas na semana passada.


O crude segue a valorizar 0,11% para 78,86 dólares por barril em Nova Iorque e o Brent sobe 0,21 para 77,48 dólares em Londres. A descida das temperaturas – prevêem-se -7º Celsius hoje em Nova Iorque – está também a contribuir para a subida dos preços do gás natural nos EUA.


O ouro, apesar de estar a ceder 0,03% (primeira descida em cinco sessões, devido à valorização do dólar), deverá continuar a subir em 2010, segundo as estimativas das grandes casas de investimento. O metal amarelo acumula um ganho de cerca de 25% este ano, naquele que será o nono ano consecutivo de subidas.


A platina para entrega imediata segue a ganhar 0,1%, para 1.483 dólares por onça.


A gasolina, combustível para aquecimento, porco magro, cacau, café e sumo de laranja contam-se entre outras “commodities” listadas no índice CRB Reuters-Jefferies que estão a negociar em alta na sessão de hoje.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Nouriel Roubini - A bolha do ouro e os especuladores

In "Jornal de Negócios Online":

RB Os preços do ouro têm vindo a subir fortemente, tendo superado a barreira dos 1.000 dólares por onça e aproximando-se, nas recentes semanas, do patamar dos 1.200 dólares. Os "gold bugs" [NT: termo utilizado para descrever os investidores que apostam na subida do ouro; estes especuladores acreditam fervorosamente no valor intrínseco do metal amarelo] defendem que o preço poderá superar os 2.000 dólares por onça. Mas a recente subida das cotações, que só é parcialmente justificada por fundamentais económicos, parece ser - suspeitosamente - uma bolha especulativa.


As cotações do ouro disparam apenas em duas situações: quando a inflação está elevada e com tendência para continuar a subir, o ouro torna-se numa cobertura contra a inflação; e quando existe o risco de uma quase depressão e os investidores receiam pela segurança dos seus depósitos bancários, o ouro assume o estatuto de valor-refúgio.


Os últimos dois anos encaixam--se neste padrão. As cotações do ouro começaram a subir fortemente no primeiro semestre de 2008, quando os mercados emergentes estavam a sobreaquecer, os preços das matérias-primas estavam a subir e havia receios de um aumento da inflação nos mercados emergentes de forte crescimento. Mesmo essa escalada foi em parte uma bolha, que estoirou na segunda metade de 2008, quando - depois de o petróleo superar os 147 dólares por barril, destruindo o crescimento global - a economia mundial mergulhou na recessão. Assim que os receios em torno de uma deflação substituíram os receios de inflação, os preços do ouro começaram a descer, de par com a correcção nas cotações das "commodities".


A segunda escalada de preços ocorreu quando o Lehman Brothers colapsou, deixando os investidores assustados em relação à segurança dos seus activos financeiros - incluindo os depósitos bancários. Esse pânico foi controlado quando o G-7 se comprometeu a aumentar as garantias sobre os depósitos bancários e a apoiar o sistema financeiro. Quando a situação ficou mais calma, em finais de 2008, os preços do ouro retomaram o movimento de queda. Nessa altura, com a economia global a entrar numa quase depressão, a utilização comercial e industrial do ouro, e mesmo a procura por parte do sector do luxo, caíram ainda mais.
O ouro voltou a superar os 1.000 dólares por onça em Fevereiro-Março de 2009, quando parecia que a grande maioria do sistema financeiro dos Estados Unidos e da Europa poderiam estar perto da insolvência e que muitos governos poderiam não conseguir garantir os depósitos e sustentar o sistema financeiro, pois os bancos que eram demasiado grandes para falir eram também demasiado grandes para serem salvos.


Esse pânico diminuiu - e os preços do ouro voltaram a inverter para a baixa - depois de os bancos norte-americanos terem sido submetidos aos "stress tests" [NT: Estes testes tiveram como intenção perceber a capacidade de as instituições financeiras em causa sobreviverem à recessão e à crise financeira mundial que se estava a viver e de suportarem uma deterioração do clima económico], de o programa de compra de activos tóxicos (TARP) por parte do governo dos EUA ter ido em socorro do sistema financeiro, retirando os activos problemáticos dos balanços dos bancos, e de a economia global ter tocado, gradualmente, no fundo.
Assim sendo, não havendo riscos de curto prazo de inflação ou de depressão, por que motivo é que as cotações do ouro recomeçaram a subir fortemente nos últimos meses?


Existem várias razões para os preços do ouro estarem em alta, mas estas apontam mais para uma subida gradual, com riscos significativos de uma correcção em baixa, do que para uma subida rápida até aos 2.000 dólares por onça, tal como é afirmado actualmente pelos "gold bugs".


Em primeiro lugar, se bem que a economia mundial esteja ainda em deflação, os enormes défices orçamentais monetizados estão a alimentar receios em torno da inflação no médio prazo. Em segundo lugar, uma vaga de liquidez sem precedentes, através de uma política monetária muito cómoda, está a ser aplicada em activos, incluindo nas matérias-primas, o que poderá acabar por relançar a inflação. Em terceiro lugar, as operações de "carry trade" [NT: fonte de financiamento em moeda estrangeira] financiadas pelo dólar exercem uma substancial pressão baixista sobre a nota verde, ao mesmo tempo que se verifica uma relação inversa entre o valor da divisa norte-americana e o preço das matérias-primas denominadas em dólares: quanto mais baixo o dólar, mais elevado fica o preço em dólares do petróleo, de outros produtos energéticos e outras "commodities" - incluindo o ouro.
Em quarto lugar, a oferta global de

ouro - tanto a existente como a de recente produção - é limitada e a procura está a aumentar mais depressa do que pode ser atendida. Parte desta procura está a provir dos bancos centrais, como os da Índia, China e Coreia do Sul. E parte desta procura deriva dos investidores privados, que estão a usar o ouro como cobertura contra os riscos extremos, que continuam a ser pouco prováveis (inflação elevada e mais uma quase depressão provocada por uma recessão em forma de W). Com efeito, os investidores procuram cada vez mais proteger-se antecipadamente destes riscos. Atendendo à oferta inelástica do ouro, mesmo uma pequena alteração nas carteiras dos bancos centrais e dos investidores privados em favor do ouro são suficientes para fazer os preços subirem significativamente.


Por último, o risco soberano está a aumentar - basta ter em conta os problemas enfrentados pelos investidores no Dubai, na Grécia e noutros mercados emergentes e de economias avançadas. Este risco reavivou os receios de que os governos possam não ser capazes de apoiar um sistema financeiro demasiado grande para ser resgatado.


No entanto, uma vez que o ouro não tem valor intrínseco, existem fortes riscos de uma correcção dos preços para a baixa. Os bancos centrais acabarão por ter de abandonar as políticas de facilitação quantitativa [injectar liquidez no sistema financeiro] e de taxas de juro em torno do zero, o que exercerá uma pressão baixista sobre os activos de risco, onde se incluem as matérias-primas. E a retoma global pode acabar por se revelar frágil e anémica, levando a um maior sentimento "bearish" em relação às "commodities" - e "bullish" face ao dólar.


Um outro risco de correcção para a baixa reside no facto de o "carry trade" financiado pelo dólar poder ser desarticulado, fazendo estoirar a bolha de activos a que - de par com a vaga de liquidez monetária - deu origem. E atendendo a que o "carry trade" e a vaga de liquidez estão a provocar uma bolha de activos global, parte da recente subida do ouro está também a ser impulsionada por essa bolha, com o comportamento de manada e a "negociação por impulso" por parte dos investidores a levar o preço do ouro para níveis cada vez mais altos. Mas todas as bolhas acabam por estoirar. Quanto maior for a bolha, maior será o estoiro.


O recente aumento das cotações do ouro só é parcialmente justificado pelos fundamentais económicos. E também não é muito claro por que razão devem os investidores armazenar ouro se a economia global voltar a mergulhar na recessão e se os receios de uma quase depressão e de uma escalada da inflação se intensificarem fortemente. Se você realmente receia um colapso da economia a nível global, deverá armazenar armas, comida enlatada e outros produtos que pode realmente usar na sua cabana no meio do bosque.


Nouriel Roubini é professor de Economia na Stern School of Business, Universidade de Nova Iorque, e "chairman" da Roubini Global Economics (www.rgemonitor.com).


© Project Syndicate, 2009.
www.project-syndicate.org
Tradução: Carla Pedro

Os vencedores e os vencidos da depreciação do dólar

In "Jornal de Negócios Online":

untitled A actual depreciação do dólar americano face às principais moedas deverá ajudar a reparar alguns dos desequilíbrios comerciais a nível mundial, mas o proteccionismo pode ser uma grande ameaça durante a lenta recuperação no consumo.


A fraqueza do dólar pode ajudar a reparar desequilíbrios comerciais a nível mundial
Num mundo ideal, um dólar mais fraco deveria ajudar a reparar o défice da balança corrente dos EUA e levar a uma recuperação mais saudável impulsionada pelas exportações, dando mais tempo aos consumidores norte-americanos para desalavancarem e encorajando-os a regressarem lentamente ao mercado, quando e à medida que o desemprego recuasse.


Contudo, para que o dólar permaneça fraco, outras moedas têm de se manter fortes. Isto levanta a questão sobre se os países de todo o mundo podem suportar a manutenção de uma moeda forte face ao dólar numa altura em que a procura global está tão fraca?


Os países com grandes excedentes devem ser os candidatos óbvios a permitirem a apreciação das respectivas moedas, dado que podem permitir-se reduzir estes excedentes. Contudo, tendo beneficiado ao longo da recessão de grandes reservas de divisas, não há incentivo óbvio para que um país se reaprecie.


A China não pode depender apenas das exportações
A China, que dentro em breve ocupará o lugar da Alemanha como o maior exportador mundial, encontra-se num clássico dilema do prisioneiro. Se "colaborar" e deixar que o renminbi se aprecie, todo o mundo ficará melhor. Não obstante, a tentação a curto prazo é manter o crescimento económico aumentando ainda mais a sua percentagem no total de exportações mundiais (actualmente em cerca de 9%).

Prosseguir com uma política pró-exportações, porém, serviria apenas para aumentar os desequilíbrios comerciais mundiais e seria insustentável a longo prazo. Ao contrário do Japão, a China é demasiado grande para basear o seu futuro crescimento apenas nas exportações e precisa de encorajar o consumo interno para usufruir de um crescimento sustentável.

 
A força do euro poderá ter um menor impacto
O que se pode dizer do dólar face ao euro? Se incluirmos o comércio inter-regional entre os 27 Estados-membros da UE, as exportações europeias representam 40% (1) do comércio mundial. A Alemanha continua a ser o maior exportador mundial, à frente da China e dos EUA, com as exportações a representarem perto de 40%(2) do PIB alemão. A França, a Itália e a Holanda figuram, igualmente, entre os dez maiores exportadores mundiais.


Teoricamente, nem o conjunto da área do euro, nem a Alemanha em particular, podem suportar um euro ainda mais forte. Porém, se excluirmos o comércio entre os países da área do euro, as exportações da região representam ainda uns significativos, mas bastante inferiores, 16% das exportações mundiais. Três quintos do comércio da área do euro realizam-se dentro da região da moeda única. Isto significa que os diferenciais de produtividade e inflação entre os Estados-membros são mais importantes para a competitividade do que os movimentos monetários.


Isto não é o mesmo que dizer que um euro forte não teria efeitos no comércio. Afinal de contas, a balança comercial entre a área do euro (3) e os EUA ainda está nos 13%. Mas o efeito seria menor que o geralmente assumido. Agora que a deflação já não merece preocupação, um euro forte também deve merecer menor preocupação da parte do Banco Central Europeu, dado que mitigará o risco de uma maior inflação a longo prazo.


Para o Japão, contudo, uma maior apreciação do iene face ao dólar dos EUA pode ser um desafio. Cerca de 20% das suas exportações ainda vão para os EUA, embora a China esteja a transformar-se rapidamente no principal parceiro comercial. As exportações para a China representavam menos de 9% do total de exportações japonesas em 2000, mas em 2007 já ultrapassavam os 18%.


A força das moedas de mercadorias pode ser positiva
E sobre as moedas exportadoras de mercadorias? Uma maior apreciação destas moedas face ao USD pode ser positiva. A curto prazo, a força da moeda produziria inflação geral através de mais elevados preços da alimentação e da energia, o que faria diminuir o rendimento disponível dos consumidores.


Mas uma vez incorporada nas expectativas, uma modesta subida na inflação tendencial contribuiria para a desalavancagem do sistema. Uma maior apreciação do dólar canadiano seria especialmente benéfica para os Estados Unidos, dado que o Canadá é o maior parceiro comercial dos EUA. Perto de 23% das exportações dos EUA vão para o Canadá, uma percentagem superior à do total da União Europeia.


Quais são os principais riscos? Tal como qualquer mudança, o problema é saber "quanto é demais". Uma prolongada depreciação do dólar dos EUA pode acabar por prejudicar a posição dos EUA perante os seus credores, limitando a atractividade da dívida norte-americana quando o crédito é mais necessário.


O maior risco, ainda assim, será o proteccionismo. Num mundo em que o consumo será cada vez mais valioso, a tentação será de impor maiores tarifas e limites absolutos sobre as importações e favorecer as indústrias locais, especialmente se a recuperação ocorrer "sem empregos". Isto limitaria a capacidade do comércio global para ajudar a recuperação e dos ajustes monetários para repararem alguns dos mais graves desequilíbrios da economia global.


1 Fonte: Estatísticas europeias
2 Fonte: Organização Mundial do Comércio
3 Fonte: Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Grécia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Holanda, Portugal


Director de vendas da JP Morgan Asset Management

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Intensidade da luta política é o grande obstáculo à liderança das mulheres

In "Jornal de Negócios Online":

Miguel Pina e Cunha diz-lhe como se devem preparar os líderes da próxima década. Para o Professor Associado na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa e Coordenador da Licenciatura em Gestão na mesma Universidade, as organizações devem abandonar o estereótipo ou a noção de um líder como um herói solitários e a intensidade da luta política é o grande obstáculo à liderança das mulheres.

Na bolsa Teixeira Duarte é a accionista da Cimpor que mais ganha com a OPA

In "Jornal de Negócios Online":

Os investidores foram hoje surpreendidos com o lançamento de uma oferta pública de aquisição (OPA) sobre a Cimpor. A cimenteira foi, tal como esperado, a que mais reagiu à notícia, mas não foi a única. A Teixeira Duarte, a maior accionista da Cimpor, disparou mais de 15%, enquanto a francesa Lafarge fechou a descer, assim como o BCP.


Depois da brasileira Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) ter anunciado esta manhã uma OPA sobre o capital da Cimpor, as acções dos maiores accionistas da cimenteira reagiram em alta, num sector que está abraços com reestruturações depois de um ano em que a construção e o imobiliário estiveram sob fogo cruzado.


Entre os accionistas da Cimpor, o que mais reagiu à OPA da Cimpor foi a Teixeira Duarte. A empresa liderada por Pedro Teixeira Duarte é a maior accionista da cimenteira detendo 22,9% da Cimpor.


Caso a Teixeira Duarte decida vender a posição que detém na Cimpor aos brasileiros, por 5,75 euros por acção, deverá encaixar 884,86 milhões de euros.


Isto numa altura em que a empresa está a passar por uma reestruturação e em que o encaixe deverá ajudar a Teixeira Duarte a reduzir a sua dívida líquida superior a 1,97 mil milhões de euros (registada no terceiro trimestre de 2009).


Os investidores receberam a notícia da OPA sobre a Cimpor com bons olhos, tendo elevado as acções da Teixeira Duarte em 15,51% para 1,08 euros.


Este foi o maior ganho entre os accionistas da Cimpor. Já que o segundo maior accionista, a francesa Lafarge, com 17,3%, desce 1,64% para 55,75 euros, tendo chegado a subir 1,25% para 57,39 euros.


A Lafarge, se decidir vender a sua posição pelos 5,75 euros oferecidos pela CSN encaixa 657 milhões de euros, “o que permitirá à empresa exceder o seu objectivo” de vendas de activos no valor de mil milhões de euros, salientam os analistas do Barclays Capital numa nota hoje emitida.


“A Cimpor está classificada como disponível para ser vendida nas contas da empresa” e a cimenteira francesa “está empenhada em reduzir a alavancagem financeira e arriscaria a notação da sua dívida se fizesse uma contra-oferta” avançam os analistas do Barclays.


Já o BCP, que detém através dos fundos de pensões 10% da Cimpor, fechou a recuar 1,01% para 0,781 euros, a reflectir as novas regras de capital aprovadas pelos reguladores financeiros internacionais e as novas previsões do Banco Central Europeu (BCE) para os montantes de amortizações que os bancos da Zona Euro terão ainda de fazer.

Ver:

TUDO SOBRE A OPA À CIMPOR

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Açores são a única região do país que teve taxas de crescimento positivas na última década

In "PUBLICO.PT":

Há já 13 anos que o PIB regional açoriano apresenta taxas de crescimento positivas; e, nos últimos oito, o ritmo de crescimento dos Açores foi sempre igual ou superior aos valores nacionais, o que permitiu uma convergência da economia açoriana para a média nacional de 10 pontos percentuais entre 1996 e 2008. Este ano, a região dos Açores foi também aquela em que houve um maior crescimento da economia


Estes dados, que podem ser constatados na publicação das Contas Regionais agora divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) revelam o PIB regional dos Açores cresceu 2,3 por cento no ano passado, bastante acima dos valores registados na Madeira (0,6 por cento) e no Centro (0,5 por cento), as duas outras regiões que também tiveram uma variação positiva no país.


“Os Açores são a única região que, em todos os últimos 13 anos, teve taxas de crescimento positivas e, em apenas três anos, cresceu abaixo de 1,9 por cento”, frisou Carlos César, numa declaração em Ponta Delgada. Nesse sentido, frisou que a região continua “a convergir com o país e com a União Europeia e a mostrar um bom desempenho económico, que ainda mais se acentua quando comparado com as realidades económicas que são confinantes”. Numa comparação apenas entre as duas regiões insulares portuguesas, os Açores apresentam um crescimento superior à Madeira pelo quarto ano consecutivo.


Para o presidente do executivo regional, os dados hoje divulgados pelo INE “são uma boa notícia para a economia açoriana e fazem prova da boa governação e do sucesso das políticas económicas e financeiras desenvolvidas nos Açores na última década”.


Evolução desigual das regiões


É um coro a várias vozes aquele que se vai ouve em termos de evolução económica das várias regiões do pais. Mas a evolução desigual das regiões, em termos económicos, durante o ano de 2008 não é suficiente para fazer desafinar a habitual concentração estrutural, que se mantém no Norte, no Centro e em Lisboa. Em 2008 36,5 por cento da riqueza do país foi criada na região de Lisboa, e 28,3 por cento na região do Norte. Mas ambas perderam residualmente o peso que tinham no início da década, quando garantiam, respectivamente 36,7 e 28,8 por cento. O Norte continua a assegurar a maior fatia em termos de emprego, com 34 por cento dos postos de trabalho declarados no país.


Em 2008, tal como no ano anterior, apenas Lisboa, a Região Autónoma da Madeira e o Algarve, entre as regiões NUTS II, ultrapassaram a média nacional (15,7 milhares de Euros, índice 100), com índices, respectivamente, de 138, 128 e 104.


Quanto à produtividade aparente do trabalho, aferida pela relação entre o PIB (ou o VAB) e o emprego que lhe está subjacente verifica-se que apenas três regiões - Norte, Centro e Região Autónoma dos Açores - não superaram a média nacional, que se cifrou nos 32,3 milhares de Euros, índice 100


As principais assimetrias neste indicador situam-se na região Norte, que oscila entre o Grande Porto (104) e o Tâmega (66)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Salário mínimo perdeu poder de compra desde 1974

In "PUBLICO.PT":

Se tivesse sido actualizado de acordo com os valores da inflação desde o ano do 25 de Abril, o salário mínimo teria um valor 87 euros mais elevado.

85% É a percentagem do valor real do salário mínimo de 475 euros para 2010 face ao poder de compra fixado em Maio de 1974. Se o salário mínimo tivesse sido actualizado desde 1974, repondo ainflação de cada ano, o seu valor em 2010 seria de 562 euros e não os 475 euros anunciados pelo Governo. Aquela quantia respeitaria o limiar de 60 por cento da remuneração base média tida internacionalmente como suficiente para um nível de vida decente.

O debate sobre o salário mínimo está novamente aceso entre organizações patronais e sindicais por causa da aplicação do acordo de Dezembro de 2006 sobre a evolução da remuneração mínima até 2011.

Em 2006, todas as confederações concordaram que o salário mínimo deveria subir até aos 500 euros em 2011. Respeitando o acordo, o Governo anunciou uma subida em 2010 de 450 para 475 euros. Mas as organizações patronais repetem não haver condições de o aplicar em tempo de crise e querem contrapartidas. O Governo já cedeu um ponto percentual nos descontos para a Segurança Social dos trabalhadores abrangidos (26 milhões de euros em 2010), mas o patronato continua a insistir.

Na passada sexta-feira, a reunião técnica para apreciar o documento governamental sobre o impacto em 2010 acabou por centrar-se - tal como a da comissão permanente da concertação social (CPCS) - nas críticas do patronato. É que se os números oficiais estimam impactos inferiores a um por cento dos salários totais, as organizações patronais apontam muito mais alto.

As confederações sindicais escandalizam-se com estas tentativas de "renegociar" um acordo assinado e obter novas contrapartidas. E agarram-se à primeira plataforma que começou a recuperar o poder de compra do salário mínimo.

Salário contra inflação

O salário mínimo existe para garantir um rendimento de base condigno, independentemente de os trabalhadores estarem cobertos pela contratação colectiva. O primeiro caso surgiu na Nova Zelândia e Austrália, ainda no século XIX. Os Estados Unidos le-gislaram-no em 1938. O caso português integra-se nos mais antigos da Europa. A Holanda criou-o em 1969, a França no ano seguinte e o Luxemburgo em 1973. Portugal e Malta em 1974. Mas o Reino Unido só o instituiu em 1999 e a Irlanda em 2000.

Quando foi criado em Maio de 1974, não se deveu a um excesso. Desde a segunda metade dos anos 60, a inflação era um fenómeno em Portugal devido, sobretudo, aos preços internacionais e à entrada das remessas dos emigrantes. Em 1973, o custo de vida subiu 25 por cento. O 25 de Abril de 1974 apenas abriu a "torneira" salarial.

O salário mínimo fixou-se em 3.300$00. Não abrangeu as forças armadas, os trabalhadores rurais e domésticos, os menores de 20 anos e as empresas com menos de seis assalariados. Mesmo assim, melhorou a vida de metade dos trabalhadores e representou uma duplicação de rendimento para 48 por cento dos assalariados com mais de 20 anos. O aumento médio foi de 870$00, mais de um terço do salário anterior.

Desde então, o salário mínimo foiabrangendo cada vez mais situações, mas perdeu o seu poder de compra. Devido às crises económicas, ao facto de se reflectir indirectamente nas contas do Estado, por causa do pensamento económico adverso durante as décadas de 80-90 e ainda à relutância patronal.O salário mínimo sofreu um primeiro golpe em 1978, após o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). E levou uma profunda machadada durante a crise de 1983-85. O aperto ordenado de novo pelo FMI fez cair o seu valor real para 75 por cento do poder de compra de 1974.

Influência liberal

Nos anos seguintes, os aumentos aprovados pouco ajudaram. Entre 1986 e 1990, registaram-se os seus valores reais mais baixos, só comparáveis com o período de 1994 a 1997, pós recessão de 1993 (68 por cento do poder de compra de 1974). Portugal importou muito da teoria liberal norte-americana que considerava o salário mínimo como causa de desemprego. A Administração Reagan chegou a congelar o salário mínimo entre 1981 e 1989. De 1997 a 2001, assistiu-se a uma ligeira melhoria, mas em 2005 voltou a cair (73 por cento do poder de compra de 1974).

Em parte, esta evolução explica-se pelas reticências dos próprios go-vernos. Em 1999, por exemplo, o relatório do grupo interministerial do salário mínimo frisava a indexação do salário mínimo em "numerosas prestações e subsídios" como causa para maiores gastos orçamentais. Estimar esse efeito indirecto era impossível e, na dúvida, evitaram-se aumentos significativos do salário mínimo. Mesmo sendo visível a sua queda real face à evolução do salário médio, para lá do limite aconselhado.

Os trabalhos em torno da Carta Social Europeia estimaram um limiar de decência para o salário mínimo - 60 por cento do salário médio. O "ponto" era de 68 por cento, mas entrando em conta com a Europa de Leste baixou para 60 por cento. Ora, em Portugal nem essa revisão "em baixo" foi aplicada.

Em 2008, segundo os dados ofici-ais, a remuneração de base média foi de 892,9 euros, mas, juntando subsídios e ganhos, o salário médio era igual a 1.067,5 euros. Nesse ano, o salário mínimo representou 40 por cento da remuneração de base média. Estimando um aumento salarial para 2009 e 2010, o salário mínimo ideal - ou seja, 60 por cento do salário base - deveria situar-se, na melhor das hipóteses, em 567 euros. Ou seja, mais 92 euros do que o anunciado por José Sócrates.

A única forma de conseguir uma progressão mais rápida do salário mínimo foi proceder à "desindexação" do salário mínimo das prestações so-ciais. Essa foi a base do acordo de Dezembro de 2006. Em "contrapartida", criou-se um indexante para os apoios sociais cuja fórmula é actualmente criticada pela CGTP por reduzir os apoios sociais e pensões.

Mas o acordo de 2006 implicou uma efectiva recuperação do salário mínimo. Em 2009, já representava 79 por cento do poder de compra do de 1974 e o anunciado para 2010 representará 85 por cento. Uma trajectória que está de novo a ser posta em causa.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Nouriel Roubini: História de duas economias americanas

In "Jornal de Negócios Online":

Nouriel%20Roubini Se bem que os Estados Unidos tenham divulgado recentemente um crescimento de 3,5% do PIB no terceiro trimestre, sugerindo que a mais severa recessão desde a Grande Depressão já terminou, na realidade a economia norte-americana está muito mais débil do que os dados oficiais indicam. As formas oficiais de cálculo do PIB podem sobreavaliar em grande medida o crescimento da economia, uma vez que não tomam em consideração o facto de o sentimento das pequenas empresas em relação aos negócios estar muito em baixo e de a sua produção estar a cair fortemente. O crescimento do PIB no terceiro trimestre - corrigido adequadamente em função destes factores - poderá ter sido de 2%, e não de 3,5%.


A história dos Estados Unidos é, na realidade, uma história de duas economias. Há uma economia de menor dimensão, que está a recuperar lentamente, e uma de maior dimensão, que está ainda mergulhada numa forte e persistente contracção.


Analisemos os seguintes dados. A taxa oficial de desemprego nos Estados Unidos está actualmente nos 10%, mas essa percentagem dispara para 17,5% quando se incluem os trabalhadores a tempo parcial e os indivíduos em idade legal para trabalhar mas que não procuram um emprego activamente porque se sentem desencorajados. E apesar de os dados das empresas revelarem que os cortes de postos de trabalho nos últimos três meses rondaram os 600.000, as sondagens junto dos agregados familiares - que incluem trabalhadores por conta própria e pequenos empreendedores - mostram que mais de dois milhões de pessoas perderam os seus empregos.


Além disso, o efeito total sobre os rendimentos do trabalho - a multiplicação dos empregos pelo número de horas trabalhadas e pelos salários médios pagos à hora - foi bastante mais grave do que o indicado exclusivamente pelas perdas de emprego, pois muitas empresas estão a reduzir as horas de trabalho dos seus colaboradores, a colocar os seus trabalhadores em desemprego técnico ou a reduzirem os seus salários como forma de repartirem as dificuldades entre todos.


Muitos dos postos de trabalho perdidos - nos sectores da construção e das finanças e através da externalização dos serviços e actividades de fabrico - desapareceram para sempre e os mais recentes estudos demonstram que 25% dos empregos nos Estados Unidos poderão ser, a prazo, completamente externalizados para outros países. Assim, uma crescente proporção da força de trabalho - frequentemente fora do radar das estatísticas oficiais - está a perder a esperança de encontrar um emprego remunerado, ao passo que a taxa de desemprego (especialmente para os trabalhadores com poucas ou nenhumas qualificações) continuará elevada durante um período de tempo muito maior do que nas recessões anteriores.


Debrucemo-nos também sobre o que se passa nos mercados do crédito. Os tomadores de empréstimos "de primeira classe", com boas capacidades de cumprimento do crédito, bem como as empresas com activos de primeira qualidade, não estão a dar conta de uma crise do crédito neste momento, uma vez que os primeiros continuam a ter acesso a empréstimos hipotecários e a crédito ao consumo e os segundos continuam a ter acesso aos mercados accionista e obrigacionista.


Mas os tomadores de empréstimos que não possuem um bom historial creditício - o que corresponde a cerca de um terço das famílias norte-americanas - não têm grande acesso a crédito imobiliário e a cartões de crédito. Vivem exclusivamente dos seus salários, que muitas vezes vão diminuindo devido à redução nos salários à hora e no número de horas trabalhadas.


E a crise do crédito para as empresas que não possuem activos de primeira qualidade e para as empresas mais pequenas, que dependem muito mais do acesso a empréstimos bancários do que dos mercados de capitais, continua a ser muito severa.


Analisemos também as falências e os incumprimentos por parte das empresas e das famílias. As empresas de maior dimensão - mesmo aquelas que se debatem com grandes problemas de endividamento - podem refinanciar os seus excessivos passivos em tribunal ou fora do tribunal; no entanto, um número sem precedentes de pequenas empresas está a ir à falência. O mesmo acontece com as famílias, com milhões de tomadores de empréstimos mais débeis e mais pobres a entrarem em incumprimento do pagamento das suas dívidas relacionadas com o crédito à habitação, cartões de crédito, crédito automóvel, crédito estudantil e outras formas de crédito ao consumo.


Vejamos também o que está a suceder ao consumo privado e às vendas no retalho. Os recentes dados mensais sugerem um aumento das vendas no retalho. No entanto, como as estatísticas oficiais tomam sobretudo em consideração as vendas das maiores retalhistas e excluem as quedas na venda de centenas de milhares de lojas e empresas mais pequenas que foram à falência, o consumo parece estar melhor do que na realidade está.


E enquanto os agregados familiares com rendimentos mais elevados e mais abastados têm um nível de aforro que lhes permite continuar a consumir e não se vêem obrigados a aumentar as suas poupanças, a maioria das famílias com rendimentos mais baixos tem de poupar ainda mais, uma vez que os bancos e outras entidades de concessão de crédito continuam a restringir o acesso ao crédito ao consumo e a reduzir os "plafonds" dos cartões de crédito.


Consequentemente, a taxa de poupança das famílias aumentou de 0% para 4% do rendimento disponível. Mas terá de subir ainda mais, para 8%, de forma a que o elevado endividamento das famílias seja reduzido.
É certo que o governo norte-americano está a aumentar o seu défice orçamental de forma a relançar a procura. Contudo, a maioria dos governos estatais e locais cujos rendimentos provenientes dos impostos registaram uma forte queda vê-se na obrigação de restringir as despesas de forma abrupta, despedindo polícias, professores e bombeiros, ao mesmo tempo que reduz o financiamento dos serviços sociais e a assistência social prestada aos mais desmunidos. Muitos governos estatais e locais das regiões mais pobres do país correm o risco de entrar em falência se o governo federal não proceder a um resgate, em grande escala, das suas finanças.


Além disso, as desigualdades dos rendimentos e da riqueza estão a voltar a intensificar-se: as famílias mais pobres correm um maior risco de desemprego, de redução dos seus salários ou do número de horas trabalhadas, factores que diminuem o rendimento do trabalho, ao passo que em Wall Street estão a ressurgir em força os extravagantes bónus atribuídos aos executivos. Com o mercado accionista a ganhar terreno, numa altura em que os preços das casas continuam a cair, os abastados estão a ficar ainda mais ricos, ao passo que a classe média e os pobres - cuja principal riqueza é uma casa, em vez de acções - estão a ficar mais pobres e a verem-se obrigados a suportar um insustentável encargo de dívida.


Assim, se bem que os Estados Unidos possam estar, tecnicamente, perto do fim de uma grave recessão, grande parte da América está a confrontar-se com uma quase-depressão. Não admira, por isso, que poucos americanos acreditem que aquilo que anda como um pato e que grasna como um pato seja, na verdade, o renascer da fénix.


Para aceder ao "podcast" deste texto em inglês, deve utilizar o seguinte link:
http://media.blubrry.com/ps/media.libsyn.com/media/ps/20091116Roubini.mp3


© Project Syndicate, 2009.
www.project-syndicate.org
Tradução: Carla Pedro

Mau Momento no PSI20

In "Jornal de Negócios Online":

O PSI20 atravessa um mau momento e, talvez não muito surpreendentemente, em destaque neste movimento de baixa está o BCP...


A fraqueza relativa do PSI20 ao longo das últimas semanas, apesar dos restantes índices terem interrompido o ciclo de máximos relativos de momento, não deixa contudo de ser perfeitamente evidente. Por cá, o índice vai retraindo claramente com o BCP a funcionar qual locomotiva durante esta quebra.O título quebrou mesmo o seu suporte técnico nos 0.86 euros com um volume bastante razoável para um dia de feriado, volume esse que acabou por duplicar na sessão seguinte desta quarta-feira.


Não bastasse o peso relevante do BCP no índice, cronicamente um peso-pesado, toda a Banca está a corrigir - embora mais discretamente - e muitos outros títulos foram contagiados pelo ciclo de baixa, com raras excepções como a Jerónimo Martins ou a Portugal Telecom, das poucas cotadas que se vão segurando junto dos seus máximos.


No entanto, apesar da queda generalizada, é o BCP o primeiro e único até ao momento a quebrar um suporte técnico relevante. Este pequeno vendaval vai ocorrendo com os índices europeus em claro regime de lateralização que se prolonga há várias semana e com o S&P colado nos 1115 pontos, que entretanto se tornaram claramente numa resistência no índice. Nota: as análises apresentadas constituem artigos de opinião do autor, não devendo ser entendidos como recomendações de compra e venda ou aconselhamento financeiro.

bcpneg091209
O BCP está em grande destaque no actual movimento de baixa tendo sido a primeira cotada no nosso mercado a quebrar um suporte técnico relevante.


psineg091209
Contrastando pela negativa com os restantes índices, o PSI20 encontra-se agora em tendência de baixa no curto-prazo.


daxneg091209
Apesar de interrompido o ciclo de máximos relativos, neste momento apenas se poderá identificar um regime lateral nos principais índices europeus.


s&pneg091209
Ao longo das últimas semanas, os 1115 pontos revelaram-se um muro intransponível, tornando-se agora uma resistência técnica evidente..

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Dubai: o paraíso perdido? Nada que não se soubesse

In "Jornal de Negócios Online":

Estava escrito nas estrelas ou, melhor, nos "credit default swaps". Os CDS são instrumentos financeiros derivados que permitem ao seu comprador proteger-se do incumprimento de crédito do emitente e são transaccionados, em geral, em OTC ("over the counter", mercado não regulamentado). A 26 de Novembro, os investidores que, apostando no incumprimento da dívida do Dubai, compraram CDS, com maturidade a 5 anos, pagaram um "spread" perto dos 6%. No dia anterior precisavam de pagar 3%, um valor já por si bastante elevado. Os CDS da Alemanha têm um "spread" de 0,22% nesta data. O país com os CDS mais baixos é a Noruega com uma taxa de 0,18%. Esta semana, os CDS do Dubai continuam a cotar perto dos 6%.


O mercado de CDS foi criado em 1994 por um conjunto de bancos liderados pela JP Morgan.


Estes instrumentos equiparam-se a "seguros" sobre obrigações ainda que com algumas diferenças. O risco de "default" é transferido para o vendedor do "swap". Bastava olhar para os números para adivinhar o que estava para acontecer.


Como demonstra o quadro 1, no início de 2009, os CDS do estado do Dubai estiveram quase nos 10%. Ou seja, para alguém - leia-se mercado - segurar a dívida deste estado dos Emirados Árabes Unidos (EAU) pedia-se um "spread" (uma taxa) de 10%. A bolha do imobiliário já era aqui bem visível e os bancos que concederam créditos, como os do Reino Unido e do Benelux, já sabiam que tinham um problema em mãos. Desfecho inevitável: os imóveis, no Dubai, valem hoje metade do que valiam no final de 2008 e vários fundos estão descapitalizados, sobretudo, os mais alavancados. Em suma, os mercados bolsistas a nível mundial já tinham este problema descontado, não é nada de novo. Estava escrito nas estrelas ou melhor nos CDS.

Os CDS da Grécia no passado dia 26 de Novembro cotaram acima dos 2%, neste momento aliviaram para 1,7% depois de o ministro Grego das Finanças afirmar que vai tomar medidas para colocar as contas públicas em ordem. A taxa aliviou, mas permanecem receios quanto a uma crise de liquidez na Grécia e, caso se confirmem, se a União Europeia aceitará ser fiadora do estado helénico.


Portugal parece estar ainda distante da situação vivida no Dubai. O mercado nunca pediu um valor acima de 1,6% para a República Portuguesa este ano.


Neste momento, os CDS da República Portuguesa estão a cotar 0,7% um preço substancialmente inferior ao do Dubai e mesmo ao da República da Irlanda (1,55%), da Grécia (1,7%) e de Espanha (0,87%). Portugal continua a ter crédito, não obstante as débeis contas públicas e o elevado endividamento externo. O "rating" da República Portuguesa é de A+ medido pela S&P. No entanto, os "ratings" das principais casas financeiras internacionais são mais favoráveis à Irlanda e Espanha -AA e AA+ medidos pela S&P. Ou seja, as casas financeiras dão pior "rating" à República Portuguesa mas a verdade é que o mercado só precisa de pagar 0,7% pelos CDS da dívida nacional, enquanto que para Espanha paga 0,87% e para a Irlanda 1,55%, que têm melhor "rating", como demonstra o quadro 2.


É pertinente referir que os valores destes "spreads" continuam excepcionalmente altos. Há dois anos, antes de rebentar a crise financeira nos Estados Unidos da América, e de esta se ter alastrado ao resto do mundo, os CDS rondavam os 0,05%-0,10% (para os EUA, Portugal, Espanha, Abu Dhabi, etc., com excepção da Argentina e outros países com problemas financeiros crónicos).


Independentemente da crise iniciada com o "subprime" e a falência da Lehman, julgo que a bolha do Dubai teria que rebentar, mais tarde ou cedo. Bolhas como esta vão continuar a aparecer por todo lado e não estão directamente relacionadas com o problema financeiro que abalou a economia mundial há dois anos.


Existe um caso "gritante" em Luanda, com origens também no imobiliário. O que remunera o bem imóvel é a renda - uma acção é o lucro e um crédito é o juro - tudo o resto são desajustes temporais entre a oferta e a procura. Existem bens imóveis que são remunerados só com 1%, 0,5% ou menos, mas o mercado continua a investir onde existem bolhas imobiliárias latentes e o catalisador está nos "ganhos de capital" que daí advêm - a tendência é a melhor conselheira dos investidores - mas que mais tarde ou mais cedo serão corrigidos pelo rebentar das aludidas bolhas, sejam elas imobiliárias, accionistas, mercadorias, etc.


Voltando aos Emirados Árabes Unidos e no que concerne agora ao Abu Dhabi, este tem uma solidez financeira razoável para o momento que atravessamos, com um "rating" de longo prazo de AA e estável. O mercado segura a respectiva dívida por 1,25% e a 24 de Novembro sustentava, ou "caucionava", essa mesma dívida por 1%.


Poderá Abu Dhabi - detentor da grande fatia das reservas de petróleo, o 6º a nível mundial, enquanto a actividade petrolífera no Dubai representa menos de 10% da actividade económica - e os restantes emirados serem fiéis avalistas do Dubai? Creio que sim. Apesar da dívida da empresa estatal Dubai World ascender a 26 mil milhões de dólares (4% do pacote de estímulos financeiros do plano de Paulson de 2008 à economia americana e quase 20% do PIB português). O Dubai, no entanto, depois de ter alavancado a sua economia nas garantias das extracções petrolíferas, das receitas do turismo e do imobiliário dos próximos anos está a hipotecar o futuro do país em termos financeiros.


O Dubai têm um Índice de Desenvolvimento Humano de 90.3, ficando só abaixo do Kuwait e do Qatar no Médio Oriente, mas está consideravelmente aquém dos países ocidentais. Seria, assim, importante que canalizasse os investimentos para áreas como a educação e a saúde, e não concentrá-los apenas nas actividades imobiliárias, turísticas e financeiras. Assim haverá vida, no Dubai, para além dos altíssimos CDS.


Em contrapartida, o Dubai, poderá perder o estatuto de centro financeiro dos Emirados Árabes Unidos para a capital Abu Dhabi. Julgo que serão essas as medidas que organizações internacionais e os Emirados irão recomendar ao Dubai. Os credores institucionais pedirão uma reestruturação da dívida e o problema, por agora, pode acabar por aqui… 
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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A próxima Revolução Industrial

In "Jornal de Negócios Online":

Um novo acordo global para enfrentar as alterações climáticas não será positivo apenas para os negócios. É também crucial para que a economia global alcance um crescimento sustentável.
À medida que nos aproximamos da Cimeira da ONU sobre as Alterações Climáticas, este mês em Copenhaga, grande parte do debate tem estado focalizado nos supostos conflitos de interesses entre as grandes empresas e o clima. Este argumento baseia-se na ideia de que as empresas não gostam de mudanças, particularmente as mudanças geradas por regulação ou políticas governamentais.


Trata-se de um grave erro de concepção e é uma ideia que também subestima a gravidade das opções com que nos deparamos enquanto empresários e cidadãos.


Na realidade, as empresas prosperam com as mudanças. As grandes empresas de hoje já foram constituídas por apenas algumas pessoas que viram surgir uma oportunidade, perspectivas de uma nova procura que iria aumentar, uma mudança que tornou possível criar algo de novo.


As novas tecnologias, desde o motor de combustão interna até aos microprocessadores, criaram novas oportunidades. Algumas destas oportunidades foram estimuladas pela procura, como foi o caso da produção de alimentos, e muitas das mais revolucionárias foram sustentadas por políticas governamentais bem concebidas, tal como a construção de auto-estradas e o rápido desenvolvimento da telefonia móvel. Quando estas três forças se aliam, as mudanças em matéria económica aceleram, tal como o crescimento da economia e a criação de riqueza.


Uma mudança importante na economia requer a presença dessas três forças. A revolução agrícola, a revolução industrial e a revolução tecnológica constituíram enormes oportunidades e o governo desempenhou um papel-chave em todas elas, ao reagir rapidamente no sentido de criar estruturas políticas de apoio a essas mudanças.


A revolução das baixas emissões de carbono (a revolução verde) será a próxima. Estão já a surgir novas empresas, um pouco por todo o mundo, dedicadas a oferecer soluções que permitam limitar ao máximo a poluição gerada pela geração e utilização da energia em todos os domínios, desde as lâmpadas aos transportes. No entanto, estas empresas pioneiras encontram-se ainda numa fase exploratória.


Para se ser convincente e atingir a escala de investimento necessária a uma mudança significativa na nossa orientação económica, o mundo dos negócios deve estar ciente do empenho em prol desta causa por parte dos líderes políticos, tanto nos países desenvolvidos como nos países em desenvolvimento. Qualquer tipo de inacção ou prorrogação serão desastrosos para o clima, mas serão ainda mais desastrosos para a economia.


Com um claro compromisso para com a revolução industrial das baixas emissões de carbono, as empresas de todo o mundo, pequenas ou grandes, podem competir com confiança, investir com certeza e impulsionar a escala e inovação necessárias para se proceder às mudanças que é necessário operar. O resultado será a criação de empregos, oportunidades de investimento e de uma nova direcção para a indústria.


Este esforço requer um investimento substancial, grande parte do qual direccionado para o desenvolvimento de infra-estruturas no mundo desenvolvido e em desenvolvimento. Isso implica, fundamentalmente, modificar a forma como investimos, bem como as orientações económicas, para que possamos crescer sustentadamente no caminho do compromisso das baixas emissões de carbono.


A título de exemplo, nos Estados Unidos, as medidas de eficiência energética podem, só por si, poupar mais de um bilião de dólares, ao mesmo tempo que impulsionam a criação de empregos e o crescimento no curto prazo, contribuindo para a retoma económica e providenciando o estímulo económico necessário para acelerar o investimento na produção e utilização de energia com baixas emissões de carbono.


Especificamente, um acordo global em Copenhaga pode oferecer três coisas às empresas:
1. Um claro compromisso perante as metas de redução das emissões poluentes no mundo desenvolvido e em desenvolvimento, de forma a incentivar os investimentos tecnológicos e as medidas de eficiência energética.
2. Um claro compromisso no sentido de fixar um preço global para o carbono, que permita às empresas investirem com confiança e à escala necessária.
3. Um acordo que apoia, através de um misto de financiamento público e privado, as infra-estruturas necessárias para se transitar para uma economia com baixas emissões de carbono.


Se um acordo global em Copenhaga contemplar estes três princípios simples, poderá ser o ponto de partida para uma nova revolução industrial, a revolução das baixas emissões de carbono, o que dará origem a um crescimento significativo, à criação de empregos e ao desenvolvimento económico em todo o mundo.


Neste período de turbulência financeira, um acordo global em Copenhaga implica que os responsáveis do planeta se unam para transmitir uma mensagem forte e clara às empresas: sigam o caminho das baixas emissões de carbono e nós iremos apoiar-vos ao longo de todo esse percurso.


© Project Syndicate, 2009.
www.project-syndicate.org
Tradução: Carla Pedro

Lars G. Josefsson, presidente e CEO da Vattenfall, quinta maior produtora europeia de electricidade, é membro do grupo de conselheiros sobre energia e clima do Secretariado-geral da ONU; Jamshyd N. Godrej é "chairman" da Godrej & Boyce Mfg. Co. Ltd, uma das maiores empresas indianas de engenharia e de consumíveis, e já foi presidente da Confederação da Indústria Indianay; Peter A. Darbee é "chairman", CEO e presidente da PG&E Corporation; Steve Holliday é director-executivo da National Grid, que detém a rede de transmissão de electricidade de alta voltagem em Inglaterra e no País de Gales, operando também o sistema em toda a Grã-Bretanha.

Queda do desemprego atira dólar para maior subida em seis meses

In "Jornal de Negócios Online":

O euro está hoje em forte queda face ao dólar, com a moeda norte-americana a ser beneficiada com a queda inesperada da taxa de desemprego dos Estados Unidos, mostrando que a maior economia do mundo está recuperar de forma firme.


O euro está a cair 1,15% para os 1,4880 dólares, depois de ter avançado um máximo de 1,21% para os 1,4870 dólares, maior ganho desde o dia 15 de Junho.


O número de postos de trabalho nos EUA caiu em 11 mil trabalhadores, menos do que os 125 mil estimados pelos economistas consultados pela Bloomberg, anunciou hoje o Departamento do trabalho.


Esta notícia acabou por ter um forte impacto no mercado cambial, com o dólar a registar a valorização mais acentuada em seis meses, ganhando parte do terreno perdido nas últimas sessões. O euro quebrou mesmo em baixa a barreira dos 1,49 dólares.


Esta recuperação do dólar acabou por pressionar em baixa a cotação do petróleo. O crude desliza 0,58% para os 76,02 dólares enquanto o “brent” deprecia 0,36% para os 78,08 dólares.


A matéria-prima chegou a subida mais de 1% nos mercados internacionais, depois de ter sido divulgado que a taxa de desemprego nos EUA caiu inesperadamente em Novembro, o que poderia conduzir a um aumento da procura por petróleo.


No entanto a relação, muito presente nos últimos tempos, em que a queda do dólar impulsiona a matéria-prima, já que a torna mais atractiva para os investidores porque é denominada na moeda norte-americana, pesou mais.


Ou seja, a alta do dólar está a afastar o apetite dos investidores pelas “commodities”, denominadas na moeda norte-americana, o que está a pressionar os preços.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

"As casas serão mais pequenas e tudo será mais eficiente" em 2025

In "Jornal de Negócios Online":

petroleo_energia_grd Os furacões, um corte de produção da OPEP ou perturbações em regiões produtoras, como Arábia Saudita, Venezuela, Nigéria, Iraque ou Irão, são os factores que mais poderão impulsionar os preços do petróleo no próximo ano, disse hoje o presidente da consultora energética WTRG Economics, James Williams, no primeiro de um ciclo de seminários "Pré-Sal na Universidade de São Paulo", no Brasil.


Neste primeiro seminário, que tem como tema “O contexto energético, as perspectivas do pré-sal e o modelo de organização da indústria de petróleo no Brasil”, aquele analista norte-americano referiu também que factores poderão fazer cair os preços do crude em 2010, como a recessão nos EUA e Europa, uma maior capacidade dos membros da OPEP ou não-OPEP, bem como uma maior eficiência energética e uma maior aposta nos biocombustíveis e nuclear, além de uma transição do carvão e do gás natural para os combustíveis líquidos.


James Williams apontou igualmente um cenário energético para 2015-2025, salientando a importância da energia solar, eólica, geotérmica e das marés, bem como as melhores baterias e a geração de combustível a partir de algas marinhas. Tudo em detrimento das energias poluentes, onde se inclui o petróleo, o carvão e o gás natural.


Além disso, o responsável da WTRG declarou que os carros alimentados a gasolina vão perder quota de mercado a favor da electricidade e do gás natural. Por outro lado, as casas serão mais pequenas e tudo será mais eficiente, sublinhou.


Aquele analista previu ainda, para esse período, uma “des-suburbanização”, o que levará a que se ande menos de carro, e apontou o predomínio do aproveitamento passivo da energia solar no aquecimento dos edifícios de escritórios e habitacionais.


Contratos de futuros têm ditado tendência do mercado "spot"


James Williams declarou, durante a sua intervenção, que a procura de contratos de futuros no mercado petrolífero tem tido um maior impacto nos preços do que a procura física.


Os operadores de fundos de índices, de ETF (Exchange Traded Funds – replicam a evolução de um índice) e de “swaps” têm estado frequentemente isentados de limitação no número de contratos que podem deter, sublinhou o presidente da WTRG Economics. E esta especulação tem sido fortemente responsável pela escalada das cotações, pelo que as autoridades norte-americanas estejam a delinear nova regulação que contrarie este cenário.
“No final de Setembro, os futuros e opções detidos por este grupo de operadores representavam o equivalente a metade de todos os contratos negociados no NYMEX [mercado nova-iorquino de mercadorias, onde é negociado o crude de referência dos EUA, o West Texas Intermediate]. Tratam-se de compradores com posições longas, que correspondem a um terço de todos os contratos de futuros”, referiu.


Assim, esta maior procura de futuros, e não de petróleo físico, fez subir os preços dos futuros, o que acabou por ter impacto no preço “spot” (mercado à vista), comentou ainda James Williams.


O ciclo de 13 seminários de análise sobre temas relacionados com o pré-sal no Brasil teve início ontem na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Os próximos 12 seminários vão focalizar-se em temas específicos, estando previstos “workshops” com especialistas do sector para se explorar os referidos temas mais em profundidade.


O ciclo abordará, assim, grandes linhas temáticas, entre as quais se destacam as questões relacionadas com a geopolítica e estratégia, a geologia e exploração, a tecnologia de produção e logística, a segurança, tutela marinha, meio ambiente e repercussões sociais.


O seminário de encerramento decorre a 4 de Junho de 2010, dia em que serão apresentadas as conclusões dos seminários temáticos.


No seminário de hoje, onde se fala da energia no mundo actual e no pré-sal do sector petrolífero brasileiro, bem como nos modelos de organização desta indústria, o encerramento é feito por José Sérgio Gabrielli de Azevedo, presidente da Petrobras.

The Dollar Bubble

In "YouTube - Preparing Americans for Hyperinflation":

Ver:

National Inflation Association

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Roubini adverte para o início de uma bolha nos mercados

In "Jornal de Negócios Online":

roubini_lisboa_max Os fundamentais não justificam, só por si, a forte escalada nos mercados de activos, afirmou hoje em Lisboa o economista Nouriel Roubini, célebre por ter previsto a mais recente crise financeira. Roubini falou dos sinais de bolha nos mercados de activos e do risco de forte correcção.


De acordo com Roubini, se os fundamentais não forem mais robustos, há um grande risco de correcção nos mercados. “A economia global está a crescer outra vez, evitámos a catástrofe da quase-depressão, mas há um ‘gap’ entre o que o mercado nos diz e os dados que mostram que a recuperação é anémica”, disse o economista.


“O sistema financeiro vai ter perdas maiores do que o esperado”, advertiu Roubini.


Roubini considera que existem riscos de novas bolhas de activos, uma vez que os mercados accionistas e de matérias-primas têm vindo a valorizar bastante por força das baixas taxas de juro sobre os empréstimos. “É dinheiro fácil atrás dos activos, como os mercados de ‘commodities’”, declarou.


“Estamos a assistir ao início de uma bolha nos mercados financeiros”. Daí que haja um grande risco de correcção, alertou o economista.


Roubini salientou que os Estados Unidos, por exemplo, têm crescido muito à conta de bolhas. “Foi a bolha tecnológica, a bolha imobiliária, a bolha do crédito hipotecário...”, relembrou. “Nos últimos 20 anos tem havido uma grande moderação na economia real, mas é também por isso que foram surgindo as bolhas de activos”.


“Os Estados Unidos têm de conseguir crescer de forma mais sustentável, que não dependa de bolhas”, avisou, frisando que é preciso reformular a supervisão do sistema financeiro. Se isso não acontecer, “vai ser bastante penalizador” para a economia.

Ver:

Star Economist Roubini Says Outlook Still Bleak:

Quer trabalhar em Wall Street? Torne-se primeiro um ás no "Poker"

In "Jornal de Negócios Online":

poker_street Alguns dos melhores candidatos a empregos de operador de mercados, em Wall Street, são jogadores profissionais de póquer “online”. Quem o diz é o professor de finanças comportamentais da Universidade de Harvard, Brandon Adams que explicou as razões à Bloomberg.


Um número crescente de “hedge funds” e empresas que operam no mercado estão a monitorizar jogadores profissionais de póquer procurando talento e capacidades analíticas, segundo a Bloomberg que cita empresas de recrutamento para clientes de Wall Street. Várias casas de investimento utilizam o póquer, para ensinar os seus “trainees” a pensarem em termos estratégicos, avança a Bloomberg.


“Eles são na essência, sobreviventes do sistema. Um sistema difícil, onde 95% das pessoas perdem dinheiro”, segundo disse Adams em entrevista à Bloomberg. “Alguém suficientemente esperto e disciplinado para sobreviver nesse sitema, vai provavelmente sair-se muito bem no mundo da bolsa”, explicou.

Além disso, o conjunto de capacidades necessárias a um bom “trader”, faz parte das competências de um jogador de póquer que ganha dinheiro.


A capacidade de abordar o risco de forma racional, de decidir depressa e sob pressão, bem como um memória bem treinada, são enumeradas pelas empresas que recrutam para as firmas financeiras de Wall-Street, como necessárias a um bom “trader”.


Mas essas são também as características que distinguem um bom jogador de póquer, de um que perde dinheiro consistentemente, disseram à Bloomberg.


“Alguém que conseguiu viver do seu desempenho no póquer durante uns anos, tem mais probabilidade de ser um bom operador de bolsa do que alguém que não o fez”, disse o antigo jogador de póquer e actual gestor de risco da AQR Capital Management, Aaron Brown. “Eles sabem ir mais longe quando têm vantagem e sabem como não exagerar. Essa é uma combinação difícil de encontrar”, acrescentou.


Brown é também exemplo disso. Sendo o autor do livro “The Poker Face of Wall Street”, o gestor de risco que jogou ao longo póquer ao longo da vida e que deixou de tentar ser profissional ao fim de uns dois anos a tentar, explica sua decisão: “Acabei por perceber que [trabalhar em] finanças era mais fácil”.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Descubra as acções que triplicaram de valor este ano

In "Económico":

A menos de dois meses do final do ano, e depois de um 2008 negro para os mercados, há várias acções que já ganham mais de 200% em 2009.

Numa altura em que a bolsa brasileira lidera o campeonato das praças mundiais que mais sobem este ano, com ganhos de 140%, as acções da empresa MMX Mineração sobem quase 360% desde 1 de Janeiro. Na prática, isto quer dizer que os títulos mais do que quadruplicaram de valor.

Já a fabricante de produtos de madeira, louças e metais Duratex e a construtora brasileira Rossi Ressid, ganham mais de 256% no mesmo período.

Mas não é só do país que vai receber os Olímpicos de 2016 que vêm boas notícias. Na bolsa peruana, por exemplo, destacam-se os títulos da empresa de mineração Volcan e da Empresa Agraria Azucarera Andahuasi, que se dedica à produção de açúcar em cana. Valorizaram 367 e 305%, respectivamente.

O 'ranking' europeu

Na Europa também há casos de títulos que já triplicaram de valor em 2009 e, uma vez mais, o 'ranking' dos que mais sobem é liderado pelo sector mineiro. O preço das acções da Kazakhmys, que está cotada no principal índice londrino, o FTSE, mais do que quintuplicou este ano, com ganhos de 469%.

Também as mineiras Vedanta e Fresnillo ganham mais de 290% em 2009.

Na banca europeia, um dos sectores mais castigados pela crise financeira que eclodiu no ano passado, também há acções que se destacam com desempenhos superiores a 200%. O francês Natixis e o britânico Fortis valorizam mais de 220%.

Os melhores nos EUA

O cenário não é muito diferente no outro lado do Atlântico. No índice S&P 500 há sete títulos que cresceram mais de 200% desde Janeiro. A Ford é um deles, com uma 'performance' de 259%. Também a Freeport-McMoran, do sector mineiro, disparou 238%.

Em Lisboa, a Sonae é a única cotada no PSI 20 que já duplicou de valor desde o início do ano.

Off the Charts

In "CNBC.com":












Stop Trading, Listen to Cramer!

In "CNBC.com":

Mad Money host Jim Cramer shares his stock picks with CNBC's Erin Burnett.












Jim Cramer optimista até ao final do ano

In "Mad Money - CNBC.com":












domingo, 8 de novembro de 2009

Nouriel Roubini, says the dollar carry trade is larger than before

In "YouTube":

Nouriel Roubini sees a U-shaped recovery post bubble bursts.
Nouriel Roubini, Chairman, RGE Monitor, says the dollar carry trade is larger than before. He sees carry trades continuing for a while as long as the Fed is on hold and keeps the volatility on the long end of the yield curve low.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

10 coisas que deve saber antes de investir em acções

In "Jornal de Negócios Online":

A crise financeira mostrou que o jogo da bolsa tem regras apertadas. Saiba quais são as mais importantes para não voltar a cair no buraco

A grande depressão do século XXI - que arrasou os portefólios accionistas da maioria dos investidores - clarificou que a economia e a bolsa se movem por ciclos, mais ou menos longos. A seguir à fartura vem sempre uma crise, que é sucedida por mais fartura. À medida que a história avança, as regras que os investidores devem seguir consolidam-se. Conheça as dez mais importantes para que não leve as mãos à cabeça da próxima vez que as acções se desvalorizarem 50% em menos de um ano.


1. São as acções que o vão tornar milionário (se não lhe sair o Euromilhões antes)
Até se percebe se já estiver a torcer o nariz: "As acções foram a classe de activos com o pior desempenho desde 1997", indicou, no início do ano, Tim Bond, responsável pela gestão de activos do Barclays, no último "Equity Gilt Study", uma publicação anual elaborada desde 1956. Todavia, é preciso não esquecer a capacidade das acções a que os estatísticos gostam de chamar de "reversão para a média". No longo prazo, os mercados accionistas teimam em ganhar 5,2 por cento acima da inflação, segundo um estudo da London Business School, que analisou 109 anos de bolsa de 17 países do mundo. Isso quer dizer que, poupando 865 euros por mês, consegue acumular um milhão de euros (a preços de hoje) ao fim de 35 anos. Graças à reversão para a média de longo prazo, Tim Bond acredita que, na próxima década, as acções vão render (o que inclui o reinvestimento de dividendos) 12 por cento por ano. Se ele tiver razão, os investidores conseguirão multiplicar o património por mais de três em 10 anos.


2. Não seja ovelha
Foi Peter Lynch, o "guru" de "Wall Street", que o disse: se não consegue explicar como a empresa ganha dinheiro em meia dúzia de rabiscos, não invista nela. A maioria dos investidores são levados pelos seus alter-egos de ovelha e vão atrás do rebanho, a maior parte das vezes sem perceber no que estão a apostar. Mesmo que o seu gestor de conta, o seu corretor, os seus amigos e os seus familiares lhe ofereçam uma dica de uma acção que vai ficar muito "quente", se não perceber (e concordar) por que é que poderá aquecer, não invista na empresa. As firmas de electrónica que apareceram após o lançamento do Sputnik, as companhias "ponto-com" que floresceram no virar do milénio e, mais recentemente, os bancos que explodiram com produtos complexos que ninguém compreendia (e poucos compreendem hoje) são só exemplos que conduziram milhares de cabeças de ovelhas para o precipício, como se fossem lemingues.


3. Tem dúvidas, fuja para os fundos
Comprar acções directamente não é para todos. A volatilidade dos mercados não é propícia aos investidores que sejam cardíacos ou que tenham crises de ansiedade. Os efeitos podem ser vastos: vício, maus hábitos alimentares, hipertensão, stresse e isolamento social são só alguns. Além disso, para os pequenos investidores, o impacto no bolso pode ser pesado, mesmo que não registem desvalorizações nas carteiras. É que, transaccionar acções comporta vários custos, em resultado das comissões de compra e venda, de guarda de títulos, de pagamentos de dividendos e dos impostos associados. Por isso, não é recomendável que invista directamente em acções se: a) o seu médico não o aconselhar; e, b) tem menos de 25 mil euros, porque não consegue diluir os custos.
Se quer estar exposto ao mercado, mas sem negociar títulos, compre fundos de acções: são baratos, geridos por profissionais, rápidos de movimentar e diversificados. A oferta é muita, mas concentre-se nos que interessam. Entre os portugueses, a Morningstar, uma firma de avaliação de fundos, prefere o BPI Europa Crescimento, o BPI Reestruturações, o BPN Acções Europa, o Raiz Poupança Acções e o Santander Euro-Futuro Acções Defensivo.


4. Não ponha os ovos todos no mesmo cesto
Esta dica é mais antiga que a Carochinha: é muito arriscado investir numa só acção. Imagine que, há um ano, estava indeciso entre comprar acções da Sonae SGPS, a dona dos hipermercados Continente e dos supermercados Modelo, ou da Alcoa, a maior produtora de alumínio dos EUA. Se tivesse apostado na Sonae teria ganho 60% sobre o seu investimento. Se se tivesse inclinado para a Alcoa, o seu portefólio estaria agora pela metade. Se tivesse investido nas duas, o seu ganho seria uns gratificantes 10%. Ao diversificar os investimentos, se um deles correr mal, o impacto na carteira é reduzido. O mal fica espalhado pelas aldeias.
Os académicos dizem que oito acções já permitem um bom nível de diversificação (desde que não sejam do mesmo sector). A diversificação é especialmente importante em épocas de crise financeira, embora Warren Buffett, o segundo homem mais rico do mundo, defenda que a diversificação é uma medida para combater a própria estupidez. Na verdade, o "guru" da bolsa tem algumas dezenas de acções na sociedade de investimento que lidera.


5. Uma carteira só de acções em exclusivo para os recém-nascidos
A porção do seu portefólio que deve estar exposto ao mercado accionista depende muito do perfil de risco, do prazo em que necessitará do capital e da dimensão da carteira. Contudo, há uma regra que pode usar como indicativa: no máximo, tenha uma percentagem igual a 100 menos a sua idade. Portanto, um investidor de 30 anos pode ter até 70% em acções, mas um reformado de 65 anos só deve ter, no limite, 35% da carteira no mercado accionista. Só os bebés é que devem ter o portefólio quase todo na bolsa. A prudência diz que não deve ter acções se faltar menos de cinco anos para a data em que necessitará de mexer no dinheiro. O ideal é retirar o capital da bolsa progressivamente ao longo de 10 anos.


6. Seja maluco q.b.
Qualquer investidor chega a uma fase da vida em que quer arriscar. Embora, em alguns casos, possa coincidir com a crise da meia-idade, os investigadores mostram que o apetite pelo risco aumenta quando a bolsa está a subir, algum tempo depois de sair da crise. Por isso, prepare-se, porque, dentro de alguns meses, pode começar a salivar com os ganhos que os seus amigos dizem que atingiram. Não há qualquer problema no risco, desde que o limite. Crie uma conta à parte para os seus impulsos menos justificados com 10% do seu portefólio - no máximo. Deixe à mão os antidepressivos para o caso de perder demasiado e os ansiolíticos para o caso de ganhar muito, porque terá ansiedade de investir mais dinheiro na próxima operação de bolsa.


7. Leia as instruções antes de usar
As notícias do dia-a-dia das suas empresas são fundamentais para se manter a par das novidades que afectam o seu bolso, mas há uma leitura tão importante que é negligenciada por muitos investidores: os relatórios das contas, que podem ser obtidos gratuitamente nos sítios de Internet das companhias. Normalmente, são grandes documentos (pelo menos os anuais), mas não se assuste. Num capítulo introdutório, o presidente da empresa escreve uma carta em que conta o que aconteceu no ano, os altos e baixos (quase sempre, os altos são mais que os baixos) e dá alguma "graxa" aos clientes, trabalhadores, credores, fornecedores e accionistas. De seguida, ele e os restantes administradores sintetizam a actividade, com comentários ao ambiente macroeconómico, aos vários segmentos do negócio, à "performance" financeira e das acções na bolsa e à gestão da sociedade, acabando com mais alguma "graxa".
Depois, surgem os quadros. O balanço é sempre o primeiro e resume a situação patrimonial da empresa no final do período. Do lado esquerdo está o que a empresa tem (os activos) e do lado direito o que a empresa deve (capital próprio e passivo). A demonstração de resultados, o quadro seguinte, compila todos os fluxos de dinheiro efectuados no ano. Em cima, estão os custos e perdas e, em baixo, os proveitos e ganhos. A diferença é o lucro ou prejuízo da empresa. Muitos dos elementos do balanço e da demonstração de resultados têm uma nota de rodapé, que pormenoriza a informação no anexo às demonstrações financeiras. Os revisores oficiais de contas finalizam o relatório dando a sua opinião (que nem sempre é favorável).

8. Os câmbios comem-lhe os ganhos (ou os prejuízos)
Se, em Março, tivesse comprado uma acção da farmacêutica norte-americana Pfizer, teria gasto cerca de 14,50 dólares, o que, ao câmbio da altura, representaria uma aplicação de cerca 11,27 euros. Em meados de Setembro, essa acção valia 16,36 dólares, uma valorização de 12,52%. Contudo, o câmbio euro-dólar teve um movimento desfavorável de cerca de 12 por cento, pelo que, após contabilizá-lo, o investimento em euros na Pfizer teve um resultado praticamente nulo. A aposta seria boa, se não fosse o movimento cambial. Em épocas de crise económica, a atenção aos câmbios deve ser redobrada, porque eles tendem a mexer-se com mais intensidade.

9. Qual é o segredo de Buffett?
Warren Buffett é o mago da infinita paciência, o rei do investimento de longo prazo e o marajá das décadas bolsistas. "O meu período de investimento preferido é para sempre", disse o "guru". Só assim se consegue ganhar anualmente 20,3%, como ele fez entre 1964 e 2008 através da Berkshire Hathaway, a sociedade de investimento que lidera. Mesmo nos anos mais difíceis, como 2008, nunca apresentou desvalorizações de dois dígitos. Salvo raras excepções, ele adquire acções para não as vender, o que pode parecer estranho para os investidores que têm o dedo rápido no gatilho das ordens de bolsa. Começou a comprar títulos da Coca-Cola em 1988 e, três anos depois, a sua participação já valia mais do que a capitalização bolsista da Berkshire antes de começar a fazer as compras. Hoje, é o maior accionista do famoso fabricante de refrigerantes. Uma das suas participações mais antigas é o jornal "Washington Post": começou a comprar em 1973.


10. Deixe as emoções na cama
As acções podem torná-lo num milionário, mas não corra o risco de se apaixonar. Seja frio, distanciando-se sempre que tiver de tomar uma decisão financeira. Muitos compraram acções do Banco Comercial Português perto ou acima dos quatro euros e não as vendem hoje porque isso representaria uma perda de 75%. Se encontrar uma aplicação que acredita que dará mais no seu prazo desejado, não é lógico que deve vender os títulos do banco, aguentar a perda e ganhar mais com o outro investimento? Não seja tolo: guarde as emoções para quem aprecia.

 
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