terça-feira, 29 de novembro de 2011

A queda da Zona Euro

In "Jornal de negócios online":

A crise na Zona Euro parece estar a atingir o seu auge: a Grécia à beira do incumprimento e uma inglória saída da união monetária, ao passo que Itália está prestes a perder o acesso ao mercado de financiamento. Mas os problemas da Zona Euro são muito mais profundos. São estruturais e penalizam severamente pelo menos quatro outras economias: Irlanda, Portugal, Chipre e Espanha.

Na última década, os PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) eram os consumidores de primeiro e último recurso da Zona Euro, gastando mais do que obtinham de rendimentos e registando um défice de contas correntes cada vez maior. Ao mesmo tempo, os países do núcleo da Zona Euro (Alemanha, Holanda, Áustria e França) eram os produtores de primeiro e último recurso, gastando menos do que ganhavam e apresentando contas correntes crescentemente excedentárias.


Estes desequilíbrios externos foram também sustentados pela solidez do euro desde 2002 e pela divergência entre as taxas de câmbio reais e a competitividade dentro da Zona Euro. Os custos unitários do trabalho diminuíram na Alemanha e noutras regiões do núcleo da Zona Euro (porque os salários cresceram menos do que a produtividade), levando a uma depreciação em termos reais e a um aumento do superavit das contas correntes, ao mesmo tempo que se registava precisamente o contrário nos PIIGS e no Chipre, levando a uma apreciação em termos reais e a um aumento do défice das contas correntes. Na Irlanda e em Espanha, o nível das poupanças dos particulares caiu fortemente e a bolha no mercado imobiliário alimentou um consumo excessivo, ao passo que na Grécia, em Portugal, no Chipre e em Itália foram os excessivos défices orçamentais que exacerbaram os desequilíbrios externos.


A consequente acumulação de dívida privada e pública nos países deficitários deixou de ser controlável quando as bolhas imobiliárias estoiraram (Irlanda e Espanha) e quando os défices das contas correntes e os buracos orçamentais, ou ambos, se tornaram insustentáveis na periferia da Zona Euro. Além disso, os enormes défices das contas correntes dos países periféricos, impulsionados pelo consumo excessivo, fizeram-se acompanhar pela estagnação económica e pela perda de competitividade.


Então, o que nos resta agora?


A reflação [estimular a economia através do aumento do suprimento de moeda ou reduzindo taxas, é o oposto de deflação] simétrica é a melhor opção para restaurar a competitividade e o crescimento na periferia da Zona Euro, ao mesmo tempo que se levam a cabo as necessárias medidas de austeridade e reformas estruturais. Isto implica uma significativa flexibilização da política monetária por parte do BCE; provisão de apoio ilimitado de credor de último recurso a economias ilíquidas mas potencialmente solventes; uma forte depreciação do euro, o que poderá transformar os défices das contas correntes em excedentes; e estímulos orçamentais nos países do núcleo se a periferia for obrigada à austeridade.


Lamentavelmente, a Alemanha e o BCE opõem-se a esta opção, devido à perspectiva de uma dose temporária de inflação modestamente mais elevada nos países do núcleo da Zona Euro face à periferia.
O amargo medicamento que a Alemanha e o BCE querem impor à periferia – a segunda opção – é a deflação recessiva: austeridade orçamental; reformas estruturais visando impulsionar o crescimento da produtividade e reduzir os custos unitários do trabalho; e uma depreciação real, através do ajuste de preços, por oposição ao ajuste da taxa de câmbio nominal.


Os problemas com esta opção são imensos. A austeridade orçamental, se bem que necessária, significa uma recessão mais profunda no curto prazo. Mesmo as reformas estruturais reduzem a produção no curto prazo, porque é algo que exige que se despeçam trabalhadores, que se encerrem empresas que estão a dar prejuízos e que seja feita uma realocação gradual da mão-de-obra e do capital em novas indústrias emergentes. Assim, para evitar uma espiral de recessão ainda mais profunda, a periferia precisa de uma depreciação real para melhorar o seu défice externo. Mas mesmo que os preços e salários caiam 30% nos próximos anos, o valor real da dívida aumentará fortemente, agravando a insolvência dos governos e dos devedores privados.


Em suma, a periferia da Zona Euro está agora perante um paradoxo: aumentar excessivamente as poupanças ou demasiadamente depressa leva a uma nova recessão e torna as dívidas ainda mais insustentáveis. E esse paradoxo está agora a afectar também o "core" da Zona Euro.


Se os países periféricos continuarem enredados numa armadilha deflacionista de elevado endividamento, queda da produção, fraca competitividade e défices externos estruturais, acabarão por se sentir tentados por uma terceira opção: o "default" e a saída da Zona Euro. Isso permitir-lhes-ia revitalizar o crescimento económico e a competitividade, através da depreciação das novas moedas nacionais.


Evidentemente, um tal desmoronamento desordenado da Zona Euro constituiria um choque tão severo como o do colapso do Lehman Brothers em 2008, se não mesmo pior. Para o evitar, as economias do núcleo da Zona Euro terão de escolher a quarta e última opção: subornar a periferia para que se mantenham num estado de fraco crescimento, sem qualquer competitividade. Isso exigirá que aceitem sofrer perdas com uma significativa proporção da dívida pública e privada, bem como uma avultada transferência de dinheiro que impulsione os rendimentos da periferia, numa altura em que a sua produção estará estagnada.


De certa forma, é isso que Itália tem vindo a fazer há décadas: usar a ajuda das suas regiões do Norte para subsidiar as regiões mais pobres do Mezzogiorno. Mas essas transferências orçamentais permanentes são politicamente impossíveis na Zona Euro, onde os alemães são alemães e os gregos são gregos.


Isso significa também que a Alemanha e o BCE têm menos poder do que aquilo que pensam. Se não abandonarem o ajustamento assimétrico (deflação recessiva), que concentra todas as dores na periferia, e se não optarem por uma abordagem mais simétrica (austeridade e reformas estruturais na periferia, conjugadas com uma reflação em toda a Zona Euro), o incipiente derrube da união monetária irá acelerar à medida que os países da periferia forem entrando em incumprimento e abandonando a Zona Euro.


O recente caos na Grécia e em Itália pode ser o primeiro passo deste processo. Claramente, a Zona Euro não pode continuar a agir como tem feito até agora. Se a Zona Euro não caminhar no sentido de uma maior integração política, económica e orçamental (num caminho consistente com o restabelecimento do crescimento, competitividade e sustentabilidade da dívida no curto prazo, necessário para solucionar o problema da insustentabilidade da dívida e para reduzir os crónicos défices orçamentais e externos), a deflação recessiva irá certamente conduzir a um desmoronamento desordenado.


Sendo Itália demasiado grande para falir, demasiado grande para salvar e agora no ponto de não retorno, já começou o fim do jogo na Zona Euro. Primeiro virão as reestruturações sequenciais e coercivas da dívida e em seguida virão as saídas da união monetária, o que acabará por levar à desintegração da Zona Euro.

Project Syndicate, 2011.
www.project-syndicate.org
Tradução: Carla Pedro

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Estabilidade e instabilidade monetária no desenvolvimento da Crise de 1929

In "Jornal de negócios online":

A atual crise da dívida nos EUA e na Europa não se resolve sem uma política inflacionista. As políticas colbertistas da China e a não regulação dos pagamentos internacionais deixam antever esse caminho.

Os episódios de estabilidade e instabilidade monetária no desenvolvimento da Crise de 29 conduzem a um resultado importante: o mau sistema monetário expulsa o bom da prática internacional. Resultado que deve ser tido em conta na análise da situação atual.


Em Setembro de 1985, Estados Unidos, França, República Federal da Alemanha, Japão e Reino Unido assinaram o Acordo de Plaza, pelo qual, no interesse da estabilidade, o dólar iria desvalorizar-se 51%, relativamente ao iene, de 1985 a 1987. Em Fevereiro de 1987 foi a vez do Acordo do Louvre ser assinado por aqueles países e ainda o Canadá (G6), por forma a terminar com a desvalorização do dólar relativamente ao iene e ao marco. O objetivo continuou a ser a estabilidade do sistema de pagamentos internacionais. A entrada do Japão no período das "décadas perdidas", 1991-2000 e 2001-2010, e a criação do euro em Janeiro de 1999 levaram a um período de grande bonança no sistema de pagamentos internacional. Mas enquanto tivermos países com as suas próprias moedas os problemas de estabilidade e de bem-estar dos povos colocar-se-á sempre.


Nos primeiros anos da grande depressão de 1929, assistimos a uma divisão entre os que defendiam a todo o custo a estabilidade do valor das moedas e os que optaram pelo abandono dessa estabilidade. Os primeiros mantiveram-se fieis ao padrão-ouro, enquanto que os segundos optaram por desvalorizar, a sua moeda. O padrão-ouro pode ter sido responsável por um acentuar da gravidade da crise de 1929.


A Austrália, a primeira a abandonar o padrão-ouro em 1930, fez de imediato uma desvalorização de 40%. A Nova Zelândia e o Japão seguiram-se, em 1931 e até 1933 eram já 9 os países que haviam abandonado o padrão-ouro. Os EUA desvalorizam a sua moeda em 41% em 1934. Estas economias retomaram a recuperação económica em seguida às desvalorizações: permitiram a redução dos preços internacionais da produção desses países, as exportações aumentavam enquanto as importações diminuíam e o emprego aumentava em consequência.
E que se passava no grupo da estabilidade monetária? Os que se mantiveram fieis àquele padrão formaram o bloco-ouro em Julho de 1933. Para a França, a Bélgica, a Holanda, a Suíça e a Polónia o acordo de Paris de 8 de julho destinava-se a "impedir o caos monetário na Europa".


A primeira metade de 1933 não correu mal a este grupo em termos da recuperação económica. Sobretudo porque ganharam credibilidade em termos de estabilidade das taxas de câmbio, eliminado a especulação sobre as suas moedas. Na segunda metade as coisas começaram a correr mal: o comércio dentro do próprio grupo caía, chegando a cair 40% entre 1933 e 1934. Desemprego, crise bancária agravada e elevadas perdas de ouro ainda levaram a controles cambiais, mas em Março de 1935, a Bélgica e o Luxemburgo desvalorizam as suas moeda e saíram do bloco-ouro. Em Setembro de 1936, França, Holanda e Suíça aboliram o padrão-ouro e em Outubro, França e Itália desvalorizavam as suas moedas. O bloco da estabilidade monetária via o seu fim sem glória ou proveito, afundado em desemprego e com reservas internacionais debilitadas.


Em França, o país principal do bloco, a esquerda não era favorável à desvalorização da moeda apesar da perda de competitividade que resultava da valorização da sua moeda. A ideia de desvalorização apenas surge em reação ao anunciado controlo cambial protagonizado pela Frente Popular e aos aumentos salariais e benefícios sociais dos acordos de Matignon de 7 de junho: aumento de salários de 7% a 15% e semana de trabalho reduzida a 40 horas, para além de outros benefícios, como as duas semanas de férias pagas. Política por demais incoerente: aumentar custos quando os preços internacionais em dólares não paravam de subir! O bloco da estabilidade monetária via o seu fim sem glória afundado em desemprego e com reservas internacionais debilitadas.


Qual a moral desta história? A estabilidade monetária de curto prazo pode afetar negativamente o bem-estar, através de uma espécie de lei de Gresham aplicada a sistemas monetários: o mau sistema expulsa o bom da prática internacional. Nos dois próximos artigos falaremos da ação dos mecanismos naturais e de uma possível guerra de moedas.

Nota: A segunda parte deste artigo será publicada na próxima edição do Jornal de negócios, dia 2 de Novembro. Este artigo foi redigido segundo o novo Acordo Ortográfico.
Autor:  João Sousa Andrade. Professor de economia catedrático na Universidade de Coimbra

 

Segunda parte:

In "Jornal de negócios online":

Nas populações de seres vivos existem mecanismos naturais, reguladores, que permitem a sua reprodução. A influência externa afeta a auto-regulação. Nos grupos humanos, os mecanismos naturais são muitas vezes substituídos pela intervenção consciente e intencional dos indivíduos e das instituições.


A intervenção de política pode ser ilustrada pela situação dos EUA na década de oitenta do século XX. Na primeira metade dos anos oitenta dá-se uma subida da taxa de câmbio do dólar. O presidente do Fed, Paul Volcker, conseguiu reduzir a elevada inflação, mas provocou uma subida sustentada do dólar. O resultado de uma inflação controlada pela subida da taxa de juro seria a subida do dólar que provocaria a redução das exportações e o aumento das importações. O aumento do défice externo conduziria a um crescimento fraco ou negativo. Os EUA, como pagam a outros com a sua moeda, aumentariam os créditos bancários para pagar as suas importações. Com ausência de crescimento e excesso de moeda o dólar desvalorizar-se-ia. Mas este processo seria muito lento com o desemprego a aumentar progressivamente. O Acordo do Plaza (setembro de 1985) entre as principais economias permitiu que por ação concertada de vendas de dólares este desvalorizasse face ao iene de 51% de 1985 a 1987.


Na pura lógica dos mecanismos de ajustamento cambiais tudo se passa da seguinte forma: a moeda de um país valoriza-se em face das restantes: as exportações vão diminuir e as importações aumentar gerando um défice em termos de posse das outras moedas. Essa necessidade de moedas externas levará ao aumento do valor destas, ou seja, a desvalorização da primeira ou ainda, a redução dos preços desta economia – como estes se reduzem pode-se exportar mais e importar menos. Vejamos de perto duas situações diferentes. Na primeira o país faz tudo para não desvalorizar e na segunda desvaloriza. O país com moeda sobrevalorizada, com as mesmas unidades monetárias compra agora um adicional de bens no exterior, e por isso reduz a sua poupança, aumenta as suas compras ao exterior reduzindo as internas. A inflação interna reduz-se: dez unidades monetárias passariam a comprar sabonete e meio e não apenas um produzido nos EUA. Os exportadores encontram agora dificuldades em exportar e os produtores nacionais vendem agora menos no mercado interno. O emprego não aumenta, diminui mesmo, não se fazem novos investimentos para produzir para o mercado e pode-se ir vivendo sem dores de cabeça se alguém for emprestando dinheiro para consumir. Ausência de crescimento, o aumento do desemprego e da dívida interna e externa são a consequência. Os custos com a dívida serão cada vez mais elevados e terá de ser feita a alienação de ativos ao exterior. O desemprego forçará à queda dos salários reduzindo-se assim os custos e finalmente, ao fim de algum tempo, os preços internos aproximam-se dos internacionais. No segundo caso, o país pode, pura e simplesmente desvalorizar. Não sendo obrigado a ter um câmbio fixo, pode reduzir as taxas de juro e comprar moeda estrangeira fazendo descer o preço da sua própria moeda. Se for um país dominante até pode acordar com outros a desvalorização da sua moeda.


Como a sociedade não aceita o funcionamento daqueles mecanismos naturais, do primeiro caso, as políticas cambiais fazem sentido. Pensemos em Portugal. Se uma economia não pode alterar a taxa de câmbio, que fazer? Aceitar aquele mecanismo natural? Fazer políticas que reduzam os custos de uma forma semelhante à desvalorização é impossível: a subida do IVA não torna mais barata a produção interna, exercendo mesmo pressão para que seja mais cara. E afinal somos hoje confrontados com a necessidade de fazer políticas equivalentes. Se não puder tomar remédios para a gripe protejo-me do frio e da chuva. Que nos aconteceu? As nossas políticas económicas, desde a segunda metade dos oitenta não respeitaram o facto de não virmos a dispor da liberdade de desvalorizar. Valorizámos a nossa moeda, facilitámos as importações e dificultámos as exportações e através de baixas taxas de juro, não parámos de aumentar o nosso consumo - vivemos como ricos. E agora temos de respeitar os compromissos com os credores e indignamo-nos quando nos apelidam de maus devedores. Alguns de nós chegam mesmo a sugerir que outros paguem o que nós gastámos. No próximo artigo finalizaremos com a possível guerra das moedas.


Nota: A terceira e ultima parte deste artigo será publicada na edição de amanhã, 3 de Novembro. Artigo escrito foi redigido segundo o novo Acordo Ortográfico.
Autor:  João Sousa Andrade. Professor de economia catedrático na Universidade de Coimbra

 

Terceira parte :

In "Jornal de negócios online":

Olhando para o mundo atual vemos uma área económica, a União Europeia, que dá primazia absoluta à estabilidade da sua moeda, e um mundo, dos Estados Unidos à China, onde o valor da moeda é gerido com objetivos de emprego ou de crescimento de reservas internacionais. Olhando para um passado não muito distante (anos 30) teríamos a UE no "bloco ouro", com o seu euro, e as restantes naquilo que foi o "bloco dólar". Quem se afundou na altura? O bloco da estabilidade. Quem viu as suas economias a crescer? O "bloco dólar".


A taxa de câmbio pode ser alterada para reduzir equilíbrios, mas também pode ser manipulada para aumentar as exportações e reduzir as importações criando condições para o crescimento das economias que a manipulam. Estão neste caso as economias que dão primazia ao emprego e as economias que seguem princípios colbertistas. Se para as primeiras o objetivo será o bem-estar, para as segundas já se trata de obter o poder que deriva da acumulação de reservas de moedas internacionais.


Mas podem as economias desvalorizar ou não permitir a valorização das suas moedas? Não serão essas medidas idênticas a medidas protecionistas? E não estão estas proibidas? A Organização Mundial do Comércio zela pelo respeito da liberdade de comércio. Um país não pode proibir as importações de um outro para proteger a sua produção. Foi assim que, com a entrada da China na OMC, a produção têxtil, da Malásia e Indonésia à Itália e Portugal, se viu terrivelmente afetada. Mas se os decisores de política nada podem fazer para "proteger" a produção do seu país, podem provocar a desvalorização da sua moeda e assim baixar o preço das suas exportações e subir o das importações. Esta prática não é protecionista? Obviamente que é! Neste caso a OMC não tem nada a ver com o assunto.


E o FMI? Desde o final dos anos setenta, com o abandono das taxas de câmbio fixas, que vigoraram de 1945 a 1973, o FMI perdeu o seu poder sobre a fixação das taxas de câmbio. Quer isto dizer que os decisores de política não podem proteger a produção do seu país, através de impostos sobre as importações ou subsídios à exportação, mas podem provocar a redução da taxa de câmbio do seu país conduzindo ao mesmo? É essa a realidade desde há alguns anos nas trocas internacionais. A China, com a sua prática colbertista, acumula reservas sem cessar e aumenta o seu poder sobre o sistema internacional de pagamentos. O imperialismo do passado era acompanhado com condições de vida muito superiores às dos restantes países. Não é o caso da China. Incapazes os restantes países de impor salários mais elevados na China, é esta economia que "exporta" a redução dos salários e do nível de vida dos trabalhadores. O novo império nasce, não da supremacia tecnológica, mas da miséria dos seus trabalhadores e de uma prática de não valorização da sua moeda. Esta prática chinesa levou o FMI a aceitar que outros países, por razões embora diferentes, protejam as suas moedas da valorização. Não se trata do FMI passar a ser menos ortodoxo, mas de minimizar os custos da impotência de regulação do sistema internacional de pagamentos. No fundo, é um paliativo. A única voz que por agora se faz ouvir é a do Brasil: é necessário impedir desvalorizações comerciais e financeiras competitivas. Esta posição é interessante, porque respeita à China e aos EUA.


Nota: Este é o último de três artigos do autor publicados pelo Negócios. O texto foi redigido segundo as regras do novo acordo ortográfico.
Autor:  João Sousa Andrade. Professor de economia catedrático na Universidade de Coimbra

domingo, 25 de setembro de 2011

The advent of the global brain

In "Reuters.com":

Get ready for the global brain. That was the grand finale of a presentation on the next generation of the Internet I heard last week from Yuri Milner. G-8 leaders had a preview of Milner’s predictions a few months earlier, when he was among the technology savants invited to brief the world’s most powerful politicians in Deauville, France.

Milner is the technology guru most of us have never heard of. He was an early outside investor in Facebook, sinking $200 million in the company in 2009 for a 1.96 percent stake, a decision that was widely derided as crazy at the time. He was also early to spot the potential of Zynga, the gaming company, and of Groupon, the daily deals site.

His investing savvy propelled Milner this year onto the Forbes Rich List, with an estimated net worth of $1 billion. One reason his is not yet a household name is that he does his tech spotting from Moscow, not a city most of us look to for innovative economic ideas.

 

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Alemanha oculta 5 biliões de dívida

In "Expresso.pt":

Oficialmente, a dívida alemã em 2011 é de 2 biliões de euros. Mas a realidade pode mais do que triplicar este número.

A maior parte das despesas com reformados, doentes e pessoas dependentes na Alemanha não foram incluídas nas contas oficiais, diz o jornal económico alemão "Handelsblatt".

A dívida real alemã pode situar-se nos cerca de 7 biliões de euros, 185% do PIB e não os 83% anunciados, superando em muito os 120% do PIB da dívida italiana.   

Veja mais do Presseurop no sítio do Expresso

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EDP já tem eólica flutuante

In "Expresso.pt":

Dentro de poucos dias será rebocada para o alto mar a primeira eólica flutuante do mundo, construída na Lisnave, em Setúbal, para a EDP.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Roubini defende emissão de obrigações conjuntas dos países do euro

In "PUBLICO.PT":

O economista Nouriel Roubini considera que a solução para a actual crise financeira passa pela triplicação das verbas do fundo europeu de resgate e pela emissão conjunta de dívida pública dos membros da zona euro.

353543 As medidas foram defendidas pelo economista italiano, que ficou célebre por ter previsto a crise financeira, numa entrevista ao jornal belga L’Echo, publicada esta terça-feira, à margem de um seminário realizado ontem em Bruxelas sobre o futuro da Europa, no qual participou.


“As duas únicas opções para retirar a zona euro da crise são triplicar a capacidade do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) e a emissão de eurobonds [obrigações conjuntas]”, afirmou Roubini, defendendo a criação de uma "entidade supra-nacional que estabilize o sistema financeiro". “Caso contrário, a Itália e a Espanha vão cair na mesma situação em que se encontra a Grécia”, acrescentou.


O economista voltou a estimar o risco de recessão das economias avançadas, incluindo as da zona euro, na casa dos 60 por cento. No entanto, ressalvou, as “condições financeiras e os problemas da dívida soberana na Europa tornam ainda mais provável uma recessão económica na região”.


Roubini afirmou ainda que os países que têm possibilidade de lançar planos de estímulos à economia, como a França e a Alemanha, devem “seguir esse caminho, ao invés da contenção orçamental”. “A curto prazo, a austeridade orçamental pesa sobre a economia de um país. Isso inibe o investimento e o consumo”, alertou.
O economista fez ainda eco das recentes afirmações de Christine Lagarde, directora do Fundo Monetário Internacional (FMI), ao dizer que a “recapitalização dos bancos europeus” é “necessária para restaurar a estabilidade económica”.


As declarações de Nouriel Roubini surgem no mesmo dia em que Jean-Claude Trichet e Mario Draghi, actual e futuro presidentes do Banco Central Europeu (BCE), respectivamente, pressionaram os governos nacionais a acelerar o processo de aprovação das medidas negociadas na cimeira de líderes de 21 de Julho.


Nesta reunião ficou acordada uma reforma do FEEF, que será aumentado para 440 mil milhões de euros para poder comprar dívida pública dos países endividados nos mercados secundários, mas que aguarda a ratificação dos estados-membros. Esta solução técnica tem sido provisoriamente levada a cabo pelo BCE nos últimos meses, como forma de baixar os juros de Espanha e Itália.


Uma outra solução pode passar pela emissão de obrigações conjuntas de dívida pública europeia, uma proposta que já foi anunciada pela Comissão Europeia (CE), mas que tem sido contestada por Berlim e Paris. E ontem, a agência de notação de risco de crédito Standard&Poor’s ameaçou dar rating especulativo às eurobonds.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Aumento de impostos e corte na despesa pública no período 2011-2013

In "resistir.info":

Aumento de impostos e corte na despesa pública no período 2011-2013:

RUBRICAS
GOVERNO PS
Troika FMI-BCE-CE/PS/PSD/CDS
Governo PSD/CDS
% PIB
Milhões €
% PIB
Milhões €
% PIB
Milhões €
         OE-2011
Aumento impostos 1,2% 2.048       900
Corte nas despesas 2,2% 3.754        
         PEC 4
Aumento impostos 1,3% 2.226        
2012 0,9% 1.529        
2013 0,4% 697        
Corte nas despesas 2,4% 4.111        
2012 1,6% 2.718        
2013 0,8% 1.393        
         MEMORANDO FMI/BCE/CE/PS/PSD/CDS
Aumento impostos     1,3% 2.310    
2012     0,9% 1.535    
2013     0,4% 775    
Corte nas despesas     3,0% 5.245    
2012     1,7% 2.895    
2013     1,3% 2.350    
         DOCUMENTO DE ESTRATÉGIA ORÇAMENTAL 2011-2015 DO PSD/CDS
Aumento impostos         1,9% 3.246
2012         1,5% 2.549
2013         0,4% 697
Corte nas despesas         5,0% 8.580
2012         3,0% 5.097
2013         2,0% 3.483

Fonte: OE-2011, corte subsidio Natal e aumento IVA sobre gás e electricidade em 2011 do PSD/CDS, Memorando da troika e Documento de Estratégia Orçamental do PSD/CDS

 

Cortes nas despesas sociais e com pessoal e aumento das despesas com aquisição de serviços aprovados no período Janeiro a Julho 2011 em relação a 2010:

RUBRICAS
2010
Milhões €
2011
Milhões €
2011-2010
Milhões €
Variação %
2011-10
Transferências do OE para o SNS 5.074 4.723 -351 -6,9%
Transferências do OE para a Segurança Social (LBSS) 4.507 3.921 -587 -13,0%
Subsídio familiar a crianças e jovens 586 397 -189 -32,2%
Subsidio de desemprego e apoio ao emprego 1.349 1.208 -141 -10,5%
Rendimento Social de Inserção 333 247 -86 -25,8%
Despesas do Estado com remunerações certas e permanentes 4.860 4.541 -319 -6,6%
Despesas do Estado com aquisição de serviços a privados 452 661 209 46,4%

Fonte: Síntese da Execução Orçamental - Agosto 2011 - DGO

sábado, 27 de agosto de 2011

Wall Street: The Speed Traders

In “60 Minutes - CBS News”:

Steve Kroft gets a rare look inside the secretive world of "high-frequency trading," a controversial technique the SEC is scrutinizing in which computers can make thousands of stock trades in less than a second

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Ver:

High-Speed Traders Dive Into Forex Despite Doubts:

Speed, anonymity and liquidity, which is the ability to buy and sell easily, are the top priority for today's currency traders. In the past, a hedge fund might approach a single Wall Street bank to trade $3 million and receive a bid/ask spread, which is the gap between what sellers are offering and buyers are willing to pay, of around 2 or 3 pips, which are tiny increments of currency prices. Banks would then offload their risks by trading with rivals in an interbank electronic trading market.

Now, with direct access to an electronic trading system, the hedge fund can trade $10 million with a dozen banks at once at a spread of one pip. Even better, the hedge fund doesn't need to spend cash setting up trading links with various banks, which often only want to serve bigger investors.

Some observers complain that high-frequency and so-called algorithmic traders make life harder for other participants in the currency markets, especially Wall Street's big banks.

One worry: High-speed trading may make currencies more volatile during times of market stress. Sharp moves can hurt smaller investors who can't react as quickly.

With so many computer-generated trades "programmed in" every day, investors may develop an exaggerated sense of the market's liquidity, which means any sharp withdrawal of liquidity hurts all the more, says a top Wall Street foreign-exchange banker. An analogy is the difference between a normal person and a manic-depressive, this source says. "A normal person gets happy or sad, but a manic depressive person can get suicidal."

A aridez financeira da Europa

In “Jornal de negócios online”:

"Abril é um mês cruel", escreveu T.S. Eliot no início do seu grande poema, "The Waste Land" (Terra Árida).

Mas se Eliot tivesse sido um investidor profissional, que analisasse os mercados financeiros europeus durante os últimos anos, tenho a certeza que a sua escolha teria sido Agosto.

 
Em Agosto de 2007, quando o BNP Paribas decidiu encerrar dois dos seus "hedge funds" expostos ao "subprime" precipitou, nesse Verão, uma crise de liquidez em todos os bancos europeus. Este ano, o grande rival do BNP, Société Générale, foi o centro das atenções.

Em meados de Agosto, as suas acções caíram mais de 14% num só dia, tendo atingido o nível mais baixo em mais de dois anos e meio, devido a rumores de que o "rating" da dívida soberana francesa poderia ser reduzido, o que teria impacto nos bancos franceses.


A evolução da crise colocou, no entanto, os balanços dos bancos europeus no centro das atenções.


Desde o início da crise financeira, muitos bancos da Zona Euro fizeram muito menos progressos para fortalecer o seu capital e liquidez do que os norte-americanos e os britânicos. As disparidades foram expostas no último Relatório de Estabilidade Financeira Global do Fundo Monetário Internacional, publicado em Abril, que contém uma análise impressionante sobre as alterações no capital em acções ordinárias durante os últimos dois anos e o nível de dependência dos bancos ao financiamento dos mercados de crédito. Um membro de um banco central da União Europeia descreveu-a como a "tabela mortal".


O relatório mostra que os bancos norte-americanos aumentaram o seu capital de 5,5% para cerca de 7,5% e diminuíram a sua dependência do financiamento nos mercados de dívida de 30% para 25%. Os bancos britânicos fizeram menos progressos, tendo aumentado o seu capital de 3% para pouco mais de 4% mas reduziram, significativamente, a sua dependência do financiamento nos mercados de dívida, de quase 45%, em 2008, para 35%.


Pelo contrário, os bancos da Zona Euro mantiveram os dois indicadores praticamente inalterados. O seu capital aumentou ligeiramente mas permaneceu inferior ao dos bancos do Reino Unido (e muito abaixo do capital dos bancos norte-americanos) e continuam a depender dos mercados da dívida para quase 45% do seu financiamento total.


É por este motivo que a incerteza sobre a integridade da Zona Euro e o valor da dívida soberana dos seus Estados-membros está a ser tão penalizadora para os bancos. Dadas estas circunstâncias, serão os bancos da Zona Euro capazes de refinanciar as suas dívidas nos mercados? Os países que receberam ajuda externa foram excluídos dos mercados da dívida e dependem quase exclusivamente do Banco Central Europeu. É possível que isto aconteça a bancos de outros países?


Em 2007 e 2008, foram os políticos que sofreram com os pecados dos banqueiros; agora a situação reverteu-se. Talvez exista uma diferença: os pecados dos banqueiros foram pecados de acção, enquanto os pecados dos políticos - os diversos esforços falhados para produzir uma solução à escala do problema - são pecados de omissão. Mas as consequências são igualmente graves.


Sempre achei que a Alemanha acabaria, eventualmente, por reconhecer que era do seu interesse preservar a Zona Euro intacta. Churchill afirmou sobre os americanos: "Podemos sempre contar com eles para fazer o que está certo… assim que todas as alternativas possíveis forem esgotadas". Os alemães já esgotaram quase todas as possibilidades. Se, em breve, não fizerem o que está certo, alguns bancos poderão enfrentar sérias dificuldades e os governos europeus vão ser obrigados, mais uma vez, a injectar dinheiro público nas instituições. Isso será tão impopular como resgatar a Grécia e, possivelmente, muito mais caro.


Howard Davies, antigo presidente da Autoridade de Serviços Financeiros do Reino Unido, vice-governador do Banco de Inglaterra e director da London School of Economics, é professor na Sciences Po em Paris.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

WSJ: Portugal é um "paraíso" na reacção à austeridade

In “Económico”:

O WSJ lembra os protestos na Grécia e Espanha para escrever que Portugal é, até agora, um "paraíso" na reacção à austeridade.

"Comparativamente a outros países da zona euro que foram apanhados pela crise da dívida, a reacção em Portugal tem sido um paraíso. Já na Grécia os protestos foram violentos e em Espanha milhares de pessoas foram para as ruas exigir uma mudança política", pode ler-se na edição de hoje do The Wall Street Journal (WSJ).


Mas a situação está prestes a mudar porque à medida que os portugueses se vêem confrontados com novas medidas de contenção e cortes orçamentais por parte do Governo, agudiza-se a possibilidade de distúrbios sociais, descreve o WSJ, acrescentando que os sindicatos já estão a arregaçar as mangas. Citando declarações de uma dirigente da CGTP, que também falou ao Diário Económico, o jornal avança que Portugal deverá ser palco de uma greve geral a 1 de Outubro.


No mesmo texto, o WSJ lembra que, desde que Passos Coelho assumiu funções, em Julho, o Executivo de direita já anunciou um aumento acentuado nas taxas de transportes públicos e impôs ainda um imposto especial sobre os rendimentos para 2011.
E "as dificuldades vão apertar mais ainda, com cortes na despesa pública, com os impostos a aumentar ainda mais para equilibrar um corte nas contribuições das empresas para a segurança social e com as mudanças na lei do trabalho que incluem menos direitos para os trabalhadores demitidos", retrata o WSJ, que também escreve que "Portugal não tem outra hipótese senão tomar medidas duras" e que "os portugueses vão sofrer muito, particularmente no próximo ano".

Ver:

Portugal Braces for Austerity Battle

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Libyan Rebels Reach Tripoli: What About the Oil?

In “WSJ.com”:

WSJ reporter Summer Said takes a look at the potential impact on oil markets following upheaval in Tripoli over the weekend:

Ver:

Líbia: a intervenção dita "humanitária" da NATO

C’est l’OTAN qui fait tout le travail militaire, pas les rebelles

É a NATO que faz todo o trabalho militar, não os rebeldes

Filho de Kadhafi aparece em público "para acabar com as mentiras"

O custoso triunfo da NATO na Líbia

Web Surfing Helps at Work, Study Says

In “WSJ.com”:

Don't feel guilty about browsing the Internet at work—turns out it may actually improve your performance.

According to a new study, Web browsing can actually refresh tired workers and enhance their productivity, compared to other activities such as making personal calls, texts or emails, let alone working straight through with no rest at all.

The study, "Impact of Cyberloafing on Psychological Engagement," by Don J.Q. Chen and Vivien K.G Lim of the National University of Singapore, was presented last week in San Antonio, Texas, at the annual meeting of the Academy of Management, an association of management scholars.

O capitalismo está condenado ao fracasso?

In “Jornal de negócios online”:

Nouriel Roubini - © Project Syndicate, 2008. www.project-syndicate.org

A enorme volatilidade e a forte correcção dos preços das acções que atinge actualmente os mercados financeiros globais são um sinal de que as economias mais avançadas estão à beira de uma dupla recessão ("double-dip recession"). A crise económica e financeira provocada pela enorme dívida e alavancagem do sector privado conduziu a uma maciça realavancagem do sector público de forma a evitar uma Grande Depressão 2.0. Mas a recuperação que se seguiu tem sido anémica e medíocre na maioria das economias avançadas devido à dolorosa desalavancagem.


Agora, uma combinação de preços do petróleo e das matérias-primas elevados, de tumultos no Médio Oriente, terramoto e tsunami no Japão, crise da dívida na Zona Euro, e problemas orçamentais nos Estados Unidos (que levaram a redução do "rating" da dívida) provocaram um enorme aumento da aversão ao risco. Os Estados Unidos, a Zona Euro, o Reino Unido e o Japão estão, economicamente, lentos. Mesmo os mercados emergentes, com rápidas taxas de crescimento (como a China, emergentes asiáticos e América Latina) e as economias orientadas para as exportações que dependem destes mercados (Alemanha e a Austrália, rica em recursos) estão a viver um período de abrandamento económico.


Até ao ano passado, os decisores políticos conseguiam sempre tirar mais "um coelho da cartola" para aumentar o preço dos activos e impulsionar a recuperação económica. Estímulos orçamentais, taxas de juro perto do zero, duas rondas de "flexibilização quantitativa" ("quantitative easing" (QE)), controlo da dívida tóxica e biliões de dólares em resgates e provisões de liquidez para os bancos e instituições financeiras: as autoridades tentaram tudo. Agora ficaram sem coelhos.


A actual política orçamental é um obstáculo ao crescimento económico tanto da Zona Euro como do Reino Unido. Mesmo nos Estados Unidos, os governos locais e estatais, e mais recentemente os federais, estão a reduzir os gastos e a diminuir os pagamentos de transferências. Em breve, irão aumentar os impostos.


Outra ronda de resgates bancários é politicamente inaceitável e economicamente inviável: a maioria dos governos, especialmente na Europa, enfrenta tantos problemas que os resgates são insustentáveis. De facto, o seu risco soberano tem aumentando as preocupações com a saúde dos bancos europeus, que detêm nas suas carteiras a maior parte dos cada vez mais instáveis valores governamentais.


Neste caso, a política monetária também não pode ajudar muito. A "flexibilização quantitativa" está limitada pelos limites máximos da taxa de inflação na Zona Euro e no Reino Unido. A Reserva Federal dos Estados Unidos irá, muito provavelmente, lançar uma terceira ronda de "flexibilização quantitativa" (QE3) mas esta terá pouco tempo e chegará muito tarde. O QE2 de 2010, no valor de 600 mil milhões de dólares, os cortes fiscais e as transferências de 1 bilião de dólares conseguiram que a economia crescesse apenas 3% durante um trimestre. Depois disso, o crescimento foi inferior a 1% na primeira metade de 2011. O QE3 será muito mais pequeno e terá muito menos impacto no preço dos activos e no crescimento económico.


A desvalorização da moeda não é uma opção viável para todas as economias avançadas: todas precisam de uma moeda fraca e de um melhor equilíbrio comercial para repor o crescimento mas não o podem ter todas ao mesmo tempo. Assim, depender das taxas de câmbio para influenciar as balanças comerciais é um jogo de soma zero. As guerras cambiais estão no horizonte. O Japão e a Suíça já iniciaram a batalha para enfraquecer as suas moedas. Outros os seguirão.


Entretanto, na Zona Euro, Itália e Espanha estão em risco de perder o acesso aos mercados e as pressões financeiras sobre a França continuam a aumentar. Mas Itália e Espanha são demasiado grandes para cair e demasiado grandes para serem resgatados. Por agora, o Banco Central Europeu vai comprar obrigações dos dois países como ponte para o novo Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF). Mas se a Itália e/ou a Espanha perderam o acesso aos mercados, os 440 mil milhões de euros do FEEF poderão esgotar-se no final deste ano ou no início de 2012.


Nessa altura, a não ser que os fundos do FEEF sejam triplicados - algo a que a Alemanha se opõe -, a única alternativa seria uma reestruturação ordenada mas coerciva da dívida italiana e espanhola, tal como aconteceu na Grécia. O passo seguinte será a reestruturação coerciva da dívida não garantida dos bancos insolventes. Assim, apesar do processo de desalavancagem mal ter começado, serão necessárias reduções de dívida se os países não conseguirem, sozinhos, crescer, poupar ou gerar inflação para resolverem os seus problemas com a dívida.


Assim, parece que Karl Marx estava, em parte, certo quando afirmava que a globalização, a intermediação financeira fora de controlo e a redistribuição do rendimento e da riqueza dos trabalhadores para o capital poderia levar à autodestruição do capitalismo (apesar de já ter ficado provado que estava errada a sua ideia de que o socialismo era melhor). As empresas estão a cortar postos de trabalho porque não existe procura final suficiente. Mas reduzir postos de trabalho diminuiu o rendimento do trabalho, aumenta a desigualdade e reduz a procura final.


Os recentes protestos populares, do Médio Oriente a Israel, passando pelo Reino Unido, e o aumento da ira popular na China - e em muito em breve em outras economias avançadas e emergentes - são provocados pelas mesmas questões e tensões: crescente desigualdade, pobreza, desemprego e falta de esperança. Mesmo a classe média mundial está a sentir a pressão da queda do rendimento e das oportunidades.


Para permitir que as economias orientadas para o mercado operem como deveriam e como podem, temos de regressar ao equilíbrio certo entre mercados e oferta de bens públicos. Isto significa um afastamento tanto do modelo anglo-saxónico de "laissez-faire" e economia "voodoo", como do modelo europeu Continental de estados de bem-estar impulsionados pelo défice. Ambos os modelos estão esgotados.


Hoje em dia, o equilíbrio certo exige a criação de postos de trabalho, em parte, através de novos estímulos orçamentais dirigidos ao investimento em infra-estruturas produtivas. Exige também impostos mais progressivos; mais estímulos orçamentais de curto prazo com disciplina orçamental de médio e longo prazo; o apoio de empréstimos de último recurso por parte das autoridades monetárias de forma a evitar corridos aos bancos que podem ser ruinosas; redução do peso da dívida das famílias insolventes e de outros agentes económicos em dificuldades; e uma supervisão e regulação mais dura de um sistema financeiro que está fora de controlo; divisão dos bancos demasiado grandes para falir e dos fundos de investimentos oligopolistas.


Com o tempo, as economias avançadas vão precisar de investir no capital humano, no conhecimento ("skills") e em redes de Segurança Social para aumentar a produtividade e permitir aos trabalhadores competirem, serem flexíveis e prosperarem numa economia globalizada. A alternativa é - tal como aconteceu nos anos 30 - uma estagnação interminável, depressão, guerras cambiais e comerciais, controlo de capitais, crise financeira, insolvências soberanas e enorme instabilidade política e social.

Nouriel Roubini é presidente do Roubini Global Economics, professor de Economia na Stern School of Business, Universidade de Nova Iorque, e co-autor do livro "Crisis Economics".

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Marc Faber prepara-se para a morte do dólar hiperinflação, e distúrbios civis

In “Money Talks – MarketWatch”:

“Financial conditions are today worse than they were prior to the crisis in 2008,” he said in a telephone interview earlier this week from Thailand. “The fiscal deficits have exploded and the political system [in both the U.S. and Europe] has become completely dysfunctional.”

“The way I look at it,” Faber said, “I am ultra-bearish about everything geopolitically. In an environment of money printing, we have to ask ourselves, how do we protect our wealth? ... Where do we allocate the money?

Good question, but in fact a fairly straightforward one if, like Faber, you believe that Federal Reserve policy is stoking speculation over savings and debasing the U.S. dollar, hyperinflation is a real possibility, the stock market’s recovery since 2009 has favored the rich and powerful, cash is trash, and gold and land in the countryside are the only true safe havens.

“The Federal Reserve is a very evil institution,” Faber said with characteristic bluntness, “in the sense that they punish decent people who have saved all their lives.

“These are people who don’t understand about stocks and investments,” he added, “and suddenly they are forced to speculate.”

Speculation is the opposite of investing — of which there is little of nowadays from the corporate sector, let alone government and retail stock buyers. Corporations are instead hoarding cash out of concern that slow global economic growth will slam profits.

Such a miserly attitude can become a self-fulfilling prophecy. Faber noted that corporate earnings will likely disappoint stockholders across the board, including commodity shares, with the exception of traditional defensive sectors such as health care, consumer staples and utilities.

Moreover, one of the main ways corporations are spending money — on mergers and acquisitions rather than on hiring and equipment — is ultimately inflationary, Faber said.

“The corporate sector is not spending much money on capital investments and new investments — that’s why they have this huge hoard of cash,” Faber said. “There will be many more takeovers and industry consolidation in the years ahead. It destroys jobs, but this is what will happen. As industries consolidate, they get more pricing power, and the cost of living increases.”

Of course, Faber points out, while such dealings might not be ideal for Main Street, it can sustain Wall Street, which leads Faber to a prognosis for stocks that may surprise the doctor’s patients.

“I’m not that negative about equities,”

Faber said. “If you’re bearish about the world, you’ll probably be better off in equities than in government bonds and cash.”

Assim ele recomenda:

1. Avoid Treasurys

“It’s a suicidal investment to own 10-year or 30-year U.S. Treasurys,” Faber said.

2. Cash is trash

Given his bleak assessment of the U.S. dollar, it’s no surprise that Faber doesn’t recommend holding cash as a long-term cushion against portfolio shocks.

3. Stocks offer some safety

“I am not completely bearish about stocks,” Faber said. “If I have cash, government bonds and stocks, for the long term, I’d take stocks.”

4. Emerging markets will expand

In contrast to his dim view of U.S. and other developed markets, Faber is downright sunny about investing in emerging nations.

5. Gold is worth its weight

Gold blew through $1,800 an ounce on Tuesday, continuing its forward march as investors seek higher ground. Given his world view, Faber is convinced that the price of gold will continue rising and that any pullback is a buying opportunity.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Portugal "devolve" lixo à Moody’s

A 5 de

Julho de 2011, a Moody's considerou Portugal "LIXO"

Departamento do Tesouro estuda formas de evitar "default" nos EUA

In "Jornal de negócios online":

timothygeithnernotO Departamento do Tesouro norte-americano criou uma equipa secreta para debater formas de evitar um "default" nos EUA caso o Congresso não chegue a acordo para subir o tecto máximo de endividamento federal. A notícia está a ser avançada pela agência Reuters.

 

O Congresso terá de chegar a acordo sobre esta matéria até ao próximo dia 2 de Agosto, caso contrário o país arrisca entrar numa situação de insolvência.


O Secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner (na foto), já veio garantir que não há planos de contingência para a eventualidade de o governo dos EUA emitir mais dívida tendo já ultrapassado o limite constitucional para o fazer.


No entanto, segundo a Reuters, essa equipa secreta tem estado a explorar formas de prevenir um colapso financeiro que se daria caso o governo não fosse capaz de refinanciar a dívida.
A agência cita fontes próximas do processo.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

O que os Finlandeses precisam de saber acerca de Portugal

In "Jornal de negócios online":

"O que os Finlandeses precisam de saber acerca de Portugal" é como começa o vídeo que encerrou as Conferências do Estoril.

What the Finns need to know about Portugal.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Roubini: “Portugal vive muitas incertezas, mas pode voltar a crescer”

In "ionline":

0000337233 Nouriel Roubini, economista reconhecido pelas suas previsões acertadas da recente crise da zona euro, afirmou esta quarta-feira, nas Conferências do Estoril, que “Portugal tem capacidade para retomar gradualmente o seu crescimento”, mas que há muitas incertezas quanto ao seu sucesso. Incertezas como “se vai haver um Governo maioritário” ou se “vai haver muita contestação social” perante as medidas tomadas. “Vai ser doloroso, mas necessário, não há alternativa para quem vier a governar Portugal”

 

Mesmo assim, Roubini deixa em aberto a hipótese de que estas medidas decididas em conjunto com a troika poderão aumentar a recessão que o país vai viver a partir de 2012. O professor da Universidade de Nova Iorque afirmou ainda que, apesar dos problemas financeiros dos países periféricos da zona euro não poderem ser comparados, Portugal, Grécia e Irlanda partilham uma conjuntura. A realidade demográfica, as fracas reformas estruturais e a pouca produtividade das últimas décadas são problemas transversais às economias em crise.

Para Roubini, reformas estruturais que aumentem a completividade e as exportações são decididamente “parte da solução”. O economista lembrou que estas medidas foram negociadas no Tratado de Lisboa, assinado em 2007.

Roubini deixou ainda a questão: Podem os países periféricos da zona euro “esperar pelo menos três anos para começar a crescer?”

Ver:

Conferências do Estoril:

DESCRIÇÃO Mohamed ElBaradei, Francis Fukuyama, Dominique de Villepin, Gylfi Zoega, Larry King e Nuriel Roubini são alguns dos grandes pensadores presentes nas Conferências do Estoril, que acontece entre 4 e 6 de Maio.
As Conferências do Estoril têm como objectivo criar um pólo de reflexão e debate de nível internacional sobre os desafios da globalização, com particular atenção à relação entre os domínios global e local.

Apresentação Conferências do Estoril 2011:

Conferências do Estoril 2011 - 1º dia - Nouriel Roubini:

Conferências do Estoril 2011 - 2º dia - Mohamed El Baradei

Conferências do Estoril 2011 - 2º dia - Rodrigo Moita de Deus:

Conferências do Estoril 2011 - 2º dia - Francis Fukuyama:

Conferências do Estoril 2011 - 3º dia - Dominique de Villepin:

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Dívida Soberana

In “Económico.Fórum”:

O que é uma reestruturação da dívida soberana?
A reestruturação da dívida soberana tem estado na ribalta em virtude dos "rumores" de que poderá ocorrer na Grécia. O economista Ricardo Cabral (Universidade da Madeira) responde a 10 perguntas


Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)
10:18 Terça feira, 26 de abril de 2011   
http://aeiou.expresso.pt/o-que-e-uma-reestruturacao-da-divida-soberana=f645359


1 - O que é uma reestruturação de dívida?
É uma renegociação com redução do valor presente (ou atual) da dívida. Tipicamente está associada a um evento de incumprimento formal (vulgo, bancarrota, no inglês default). Um evento de incumprimento formal pode, por exemplo, consistir numa moratória, ou mesmo num atraso excessivo no pagamento de juros ou capital em dívida. Ocasionalmente, ambas as partes podem concordar em reestruturar a dívida sem que ocorra um evento formal de incumprimento.


2-      Quando é que as agências de rating consideram que se está diante de uma bancarrota?
As agências de notação consideram que a reestruturação é um evento de incumprimento se a participação na reestruturação de dívida não for um acto voluntário por parte dos credores.


3-      Que modalidades de reestruturação existem?
Uma redução do valor presente da dívida consegue-se de várias formas (que podem ser utilizadas em combinação):
·        a)  diminuindo o valor facial do montante em dívida (i.e., uma obrigação com valor facial de €1000 passa a ter um valor facial de €800);
·        b)  reduzindo o cupão da obrigação que resulta numa redução da taxa de juro em relação ao montante em dívida (por exemplo, para uma obrigação com valor facial de €1000 uma redução do cupão anual de €50 para €40, significaria uma redução da taxa de juro paga pelo devedor de 5% para 4%);
·        c)  aumentando a maturidade da dívida (e.g., uma obrigação que vencia em 2016 passaria a vencer em 2031 - como o valor facial em dívida só terá de ser pago muito mais tarde o valor presente da dívida diminui substancialmente).


4-      Um país devedor fica a ganhar com uma reestruturação?
A reestruturação ocorre quando o país devedor já não é capaz de pagar essa dívida - isto é, numa situação limite. O país devedor ganha em enfrentar a realidade e resolver uma situação insustentável. Contudo, associados a essa decisão, existem custos significativos de reputação e aumento dos custos de financiamento nos mercados internacionais. Além disso, a reestruturação deve ser bem dimensionada e bem conduzida. Primeiro, a reestruturação de dívida deve ser suficientemente significativa de forma a tornar a dinâmica de dívida sustentável. Segundo, deve ser uma reestruturação bem planeada e negociada com os credores, de forma a não prejudicar em demasia a actividade económica doméstica. Nomeadamente, devem ser assegurados os mecanismos de financiamento das importações de bens mais prioritários para o país (e.g., energia, alimentos, matéria prima para empresas exportadoras).


5-      O que pode acontecer se a reestruturação de dívida for mal gerida?
Uma reestruturação de dívida demasiado pequena pode resultar em reincidência da crise de dívida e nova reestruturação de dívida passados poucos anos. Uma reestruturação de dívida mal conduzida pode resultar numa crise grave do sistema financeiro, em crise económica profunda e ainda em litígios que se arrastam em tribunais internacionais por vários anos, restringindo o acesso a crédito nos mercados financeiros internacionais e dificultando o processo de ajustamento externo.


6-      O que é um "corte de cabelo" (hair-cut na designação anglo-saxónica)?
É a percentagem da redução do valor presente da dívida, que pode ser medido seguindo diferentes metodologias. Por exemplo, suponha-se que o valor facial de uma série de obrigações do tesouro que vence daqui a 5 anos (em 2016) é, através da reestruturação, reduzido em 20% de €1000 para €800 e o valor do cupão reduzido em 20% (de, por exemplo, €50 para €40), mantendo-se a data de maturidade dessa série de obrigações. Assuma-se ainda que a taxa de juro de mercado aplicável a obrigações similares (i.e., a taxa de desconto) é 5%. Nessas condições, a reestruturação de dívida reduz o valor presente dessa série de obrigações em 20%, ou seja, o haircut é de 20%. Este 'corte de cabelo' desce se o cupão se mantiver e aumenta se se alarga a maturidade da dívida. Por exemplo, se se mantiver o cupão e o valor facial originais, mas a maturidade dessa série de obrigações do tesouro passar de 5 para 20 anos (passando a taxa de desconto a ser, por exemplo, 7%), o haircut passaria a ser de 21,2%. 


7-      Quem são os principais prejudicados?
Os credores e os mercados financeiros que não gostam desse tipo de incerteza.


8-      Os contribuintes do país em dívida são lesados ou beneficiados?
Numa situação limite, com juros elevados e dívida a crescer exponencialmente devido ao juro composto, os contribuintes saem beneficiados em resolver, através da reestruturação, uma trajetória de dívida claramente insustentável. Contudo, as ressalvas acima identificadas (dimensão e condução do processo de reestruturação) são também relevantes nesta questão.


9-      É eticamente aceitável?
O capitalismo tem, na sua génese, a tomada de risco e em consequência a possibilidade de insucesso. No caso de iniciativas empresariais esse insucesso pode-se traduzir em processos de saneamento ou falência, que geralmente resultam na reestruturação de dívida dos credores da empresa. Ou seja, o processo de reestruturação de dívida é intrínseco a economias de mercado. Além desse exemplo note-se que, em economias de mercado, os bancos regularmente reestruturam os créditos que detêm sobre empresas e famílias em dificuldade. De facto, os bancos (e outras empresas) incluem na sua demonstração de resultados uma previsão das imparidades, que não é mais do que uma previsão dos hair-cuts que irão sofrer quando reestruturam a dívida dos seus clientes. É parte do dia-a-dia do negócio bancário.


10-   Se o país se refinanciar através do FEEF/FMI, fica mais difícil ou mais fácil reestruturar a dívida soberana?
A dívida contraída junto do Fundo Monetário Internacional (FMI) tem senioridade (i.e., prioridade de pagamento no caso de incumprimento) em relação à dívida soberana portuguesa. O pacote de resgate com o FEEF (Fundo Europeu de Estabilização Financeira) irá traduzir-se num chamado Loan Agreement. Contudo é de esperar que a lei e foro jurídico aplicável a esse contrato de empréstimo seja internacional (e.g., Londres, praça onde são realizados muitos contratos financeiros). Em consequência, embora os empréstimos do FEEF não tenham em teoria senioridade em relação à divida soberana portuguesa, na prática, terão essa senioridade devido ao efeito na lei e foro jurídico aplicável, com os impactos negativos consequentes. Em suma, o resgate do FEEF/FMI torna, de facto, muito mais difícil e complexa, no futuro, em caso de necessidade, uma reestruturação de dívida do estado português.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Nassim Taleb on Living with Black Swans

In "Knowledge@Wharton":

Nassim Taleb is a literary essayist, hedge fund manager, derivatives trader and professor of risk engineering at The Polytechnic Institute of New York University. But he is best known these days as the author of The Black Swan: The Impact of the Highly Improbable. During a recent visit to Wharton as part of The Goldstone Forum, he spoke with Wharton finance professor Richard Herring -- who taught Taleb when he was a Wharton MBA student -- about events in the Middle East, the oil supply, investing in options, the U.S. economy, the dollar, health care and of course, black swans.

An edited transcript of the conversation follows: Knowledge@Wharton

'There are very few options to park your money. But still, the dollar is weaker than the other currencies, including Europe. The euro now as we are talking is 1.42. That's a lot stronger than it was a few months ago.'

Europa pode ter seu primeiro calote desde 1948, diz estudo

In "Económico.Fórum":

Europa pode ter seu primeiro calote desde 1948, diz estudo
25 de abril de 2011 | 11h25
Sílvio Guedes Crespo


A empresa de pesquisas Economist Intelligence Unit (EIU), que pertence ao mesmo grupo empresarial da revista “The Economist”, publicou um relatório em março em que afirmava: “Acreditamos que Portugal seja forçado a pedir ajuda financeira em 2011”. Acertou. No início de abril, o premiê José Sócrates anunciou pela TV, em rede nacional, que o país precisaria ser socorrido pela União Europeia.


Depois da bola dentro da equipe da EIU, vale a pena prestar atenção em outros dados levantados pelo mesmo relatório, que em março poderiam parecer um pouco exagerados. Por exemplo, a suposição de que “a Europa poderá testemunhar sua primeira moratória da dívida soberana desde 1948”. Na Grécia e na Irlanda, apesar da ajuda internacional e das medidas de austeridade fiscal, não há sinais de “qualquer recuperação significativa”.


A EIU traçou quatro cenários possíveis para a zona do euro nos próximos anos, e as afirmações acima fazem parte do panorama mais provável, com 50% de chance de se concretizar. O curioso é que essa é uma expectativa relativamente otimista. A mais pessimista, com 15% de probabilidade, é a de que os países da periferia da Europa e também a Alemanha decidam abandonar o euro.


Quem indica a leitura desse estudo da EIU é Luiz Fernando de Paula*, colaborador do Radar Econômico. Ele comenta:
“Para quem está interessado nos rumos da atual crise da zona do euro, foi lançado o relatório elaborado pelo EIU intitulado ‘State of the union: Can the eurozone survive its debt crisis?‘. O estudo elabora quatro cenários sobre o futuro do euro, atribuindo 50% de probabilidade para um cenário razoavelmente otimista segundo o qual a crise é superada com cortes nos déficits públicos nos países periféricos atingidos pela crise, acompanhados do suporte financeiro dos países credores, permitindo assim que a reestruturação da dívida soberana seja obtida em 2013.


Obviamente neste caso o ônus da crise (em termos de desemprego e redução do crescimento) fica com o países atingidos pela mesma, e não dividindo o mesmo como os países credores. O estudo do EIU reconhece que há problemas estruturais na constituição da zona do euro, uma vez que as chamadas pré-condições para uma zona monetária ótima não estavam razoavelmente colocadas quando foi introduzida a nova moeda. Em outras palavras, trata-se de uma região bastante heterogênea em termos econômicos e sociais. Assim, foi muito mais um projeto político do que econômico propriamente dito.


A zona do euro irá superar a crise mantendo sua estrutura intacta? Qual o preço do ajuste adotado para manter o funcionamento da mesma? Os benefícios dos países periféricos da zona do euro em participar da mesma superam seus custos? Infelizmente o relatório não dá respostas para essas questões. Mas vale a pena a leitura.”


Leia o estudo da EIU na íntegra (em inglês)
* Luiz Fernando de Paula é professor de Economia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), pesquisador do CNPq, e Presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB).  É autor, entre outros, do livro “Financial Liberalization and Economic Performance: Brazil at the crossroads” (Routledge, 2011).


Blog da Associação Keynesiana Brasileira (AKB): http://associacaokeynesiana.wordpress.com

domingo, 24 de abril de 2011

Quatro anos após crise do subprime, EUA regulam concessão de crédito

In "PUBLICO.PT":

Quatro anos após a eclosão da crise do subprime e dos sucessivos compromissos para reduzir o risco do sistema financeiro, os Estados Unidos estão a ultimar uma proposta para regular a concessão de crédito no país.

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A ideia é que os bancos e instituições financeiras passem a ter de responder a determinados critérios antes de concederem empréstimo, desde logo assegurando-se de que os devedores serão capazes de pagar o que pediram emprestado. Na Europa, também já há uma proposta legislativa para tornar a oferta de crédito imobiliário menos vulnerável ao risco.


Nos EUA, a proposta foi apresentada esta semana pela Reserva Federal norte-americana (Fed), no âmbito da reforma do sistema financeiro – a chamada reforma Dodd-Frank – lançada pelo Presidente Barack Obama, em Julho do ano passado. O objectivo é elevar os requisitos de concessão de crédito e combater os abusos na atribuição de empréstimos que estiveram na origem da crise financeira.


Antes da crise, assistiu-se nos EUA a uma proliferação do crédito hipotecário de alto risco (subprime), com os bancos a concederem empréstimos sem pedirem suficientes provas de rendimentos. Quando as taxas de juro começaram a subir e o mercado imobiliário a arrefecer, o incumprimento começou a disparar, e multiplicaram-se as perdas junto de quem investiu neste negócio.


A iniciativa da Fed obriga os bancos e verificarem o rendimento dos clientes, os activos e a dívida que já detêm, bem como se estão ou não empregados. Os bancos que violarem estas regras ficarão sujeitos a processos legais e, até, à suspensão da execução de hipotecas, se os proprietários conseguirem provar que os bancos infringiram a lei.


Neste momento, a autoridade norte-americana colocou em consulta pública duas propostas que protegem os bancos de acções judiciais. A primeira protege os chamados "empréstimos qualificados", que não apresentam determinadas características de risco, como duração superior a 30 anos. A segunda vai mais longe, juntando a isso a ideia de que o cliente tem de ter "capacidade para pagar", com base no seu histórico de rendimentos, obrigações e situação laboral. A consulta pública vai decorrer até ao final de Julho e, depois disso, o Consumer Financial Protection Bureau (que assegura a protecção dos consumidores) irá pegar no dossier e finalizar a proposta.


Bruxelas quer baixar risco


À semelhança dos EUA, a Europa também quer regular mais a concessão de crédito, com vista a proteger os consumidores. No final de Março, a Comissão Europeia apresentou uma proposta legislativa, com vista a assegurar que todos os consumidores que querem comprar uma casa recorrendo a um empréstimo estejam suficientemente protegidos contra os riscos e saibam as consequências que correm ao fazê-lo.


Embora, na Europa, o problema não tenha atingido as mesmas proporções que nos Estados Unidos, atingiu também bancos de países como a Irlanda, a Espanha e o Reino Unido, devido à exposição ao subprime norte-americano e também por causa dos empréstimos ligados ao negócio imobiliário.


A ideia da Comissão Europeia é que os bancos passem a entregar aos clientes uma ficha técnica com informações fixas, que lhes permitam perceber claramente qual a sua capacidade de pagar aquele empréstimo. Se, em função dos padrões definidos, se concluir que uma determinada pessoa não tem capacidade para pagar aquela dívida, não é feito o empréstimo. Na Europa, o crédito malparado de particulares ronda os 1,2 a 1,9 mil milhões de euros por ano.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Grécia associa subida dos juros da dívida a comportamento criminoso

In "Jornal de negócios online":

Atenas vai iniciar uma investigação, depois dos juros da dívida terem disparado para novos máximos e da bolsa ter descido mais de 3%. Em causa poderá estar um e-mail "de um banco de investimento internacional" que dá como certa a reestruturação da dívida grega este fim-de-semana.

 

grecia_george_papaconstantinou_not1_bl "O Ministério das Finanças pediu ao Ministério Público de Atenas para investigar uma possível conduta criminal associada aos movimentos de hoje na bolsa de Atenas e nos preços das obrigações", pode ler-se num comunicado emitido pelo Ministério das Finanças grego.


Em causa está a subida de 129,4 pontos base, ou seja, mais de um ponto percentual, dos juros das obrigações a dois anos para 22,019%, tendo chegado a tocar nos 22,156% durante a tarde. No prazo a cinco anos, a "yield" das obrigações gregas avançou mais de 30 pontos base para 16,54% e a 10 anos o aumento foi de 27,1 pontos base para 14,751%. Já a bolsa de Atenas deslizou mais de 3%. "O Ministério enviou ao Ministério Público um e-mail de operadores de um banco de investimento internacional que refere uma alegada reestruturação da dívida grega este fim-de-semana."

 

"Tais rumores são vazios de qualquer substância e roçam o ridículo", garante o ministério das Finanças
As entidades gregas adiantam que "a divulgação de tais 'notícias' falsas podem criar problemas entre o público em geral" e, por isso, "o Ministério das Finanças vai usar todos os meios legais disponíveis, a fim de identificar e perseguir os responsáveis​​", adianta a mesma fonte.


A Grécia tem estado sob forte pressão, numa altura em que os rumores sobre uma possível reestruturação de dívida são cada vez mais fortes.


Lars Feld, conselheiro económico de Angela Merkel. "A Grécia não vai sair desta situação sem algum tipo de reestruturação da dívida", afirmou.


Antes dele o governador cipriota do Banco Central Europeu, Athanasios Orphanides, rejeitou a necessidade de Atenas reestruturar a sua dívida e alertou para o efeito contágio que essa medida teria. "Seria muito prejudicial para a Zona do Euro em geral, devido à possibilidade de contágio", salientou.


E de facto, o comportamento do mercado espelha este efeito dominó. Não foram apenas os juros da dívida grega que dispararam. Portugal e Irlanda voltaram a sentir subidas acentuadas nos juros da dívida, atingindo também máximos desde a entrada no Euro.

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GLOSSÁRIO

Incumprimento
Define o momento em que uma entidade deixa de ter liquidez para pagar os juros do dinheiro que pediu emprestado, ou para devolver o capital ao credor. Quando um Estado entra em bancarrota, tem de renegociar as condições do seu empréstimo, renegociação essa que pode levar a alterações no valor dos juros prometidos, na maturidade dos títulos ou no valor do capital. Em regra, os credores preferem negociar a ir para tribunal, uma vez que os soberanos estão juridicamente bem protegidos.


Reestruturação/renegociação de dívida
É um processo com consequências semelhantes aos descritos no ponto anterior, mas ocorre ainda antes de os Estados chegarem ao "fim da linha". Os governos tomam a iniciativa de se sentarem à mesa com os credores, antes de entrarem em incumprimento. A História mostra que esta antecipação costuma ser premiada pelos investidores.

"Haircut"/desconto
É a perda de capital e/ou juros que decorre de uma renegociação de dívida ou do incumprimento no pagamento dos seus juros ou reembolsos.

Ver:

FT diz que e-mail que levou a subida dos juros é de funcionário do Citigroup

Bancos vão ter dinheiro do Estado para passar stress

AO online - A ameaça:

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O dia 16 de Setembro de 1992 calhou numa quarta-feira e nada teria tido de especial se não tivesse ficado para a posteridade como a Quarta-feira Negra, a “Black Wednesday” da City de Londres. O Governo Britânico andava aos avanços e recuos, a negociar a posição da libra no Sistema Monetário Europeu (SME), hesitando entre ficar de fora ou flutuar dentro dos limites do Mecanismo de Taxas de Câmbio (MTC).

O anúncio pelos britânicos da saída da libra do sistema, por não terem conseguido mantê-la acima do seu limite inferior de flutuação (na ocasião, 2,778 marcos alemães), provocou uma onda de choque. Nessa quarta-feira, havia plenário no Parlamento Europeu e no dia seguinte o falatório entre os eurodeputados foi vivo, embora a simpatia pelos ingleses não fosse calorosa, havendo quem achasse que tinha sido melhor saírem do SME.

A postura imperial que sempre exibiram, comportando-se de modo a terem um pé dentro e outro fora do projecto europeu, o facto de terem recusado aderir ao SME em 1979, ao qual só aderiram em 1990 pela mão de John Major, além da conhecida função de “cavalo de Tróia” dos norte-americanos, suscitou posições controversas em Estrasburgo. Nas discussões em que participei, especialmente com os eurodeputados portugueses e espanhóis que partilhavam o voo especial da Air France que nos levou de volta, após aquela semana em Estrasburgo, foi muito comentado que a culpa era das altas taxas de juro alemãs, consequência da reunificação germânica.

Para conter a inflação resultante do excesso de despesa provocada pela integração da Alemanha Oriental na República Federal Alemã, o Bundesbank aumentou essas taxas, causando tensões que atingiram especialmente o Reino Unido. Naquela época, o dólar americano andava a perder valor; como os ingleses, desde sempre ligados aos Estados Unidos, têm as suas exportações expressas em dólares, viram a libra esterlina andar para trás.

A crise da Quarta-feira Negra custou ao Tesouro britânico cerca de 27000 milhões de libras para tentar aguentar o valor da moeda, mas foi aproveitada pelo especulador George Soros, que vendeu nesse dia mais de 10000 milhões de dólares em libras através do seu Fundo De Gestão, antecipando e forçando a queda da libra, numa operação designada tecnicamente por “short selling” que lhe rendeu 1100 milhões.

Esta história de Soros e da Black Wednesday, cujo desenrolar acompanhei no Parlamento Europeu, tem muito que ver com o que se passa actualmente com a especulação gigantesca que rodeia as difíceis situações financeiras da Grécia, Irlanda e Portugal. Por detrás destas crises, não é difícil ver quem vai ganhar escandalosas somas de dinheiro, a um nível mesmo superior ao lucro do Soros Fund, quando fez ajoelhar os ingleses.

Uma breve incursão no mundo nebuloso das Forex (Foreign Exchange), como são conhecidas as operações financeiras baseadas no câmbio de moeda, mostra-nos que, em média, 80% são especulativas; que têm um movimento médio diário (turnover) de 4000 milhares de milhões de dólares, mais do que toda a riqueza produzida pela Alemanha num ano; e que, das 10 principais instituições mundiais deste sector, 4 são americanas, 3 são britânicas, 1 alemã (DB-Deutsche Bank, nº1) e uma suíça (UBS, a nº2).

A UBS e o DB detêm juntos 30% do mercado mundial. O euro, ao valorizar-se e concorrer com o dólar como moeda de reserva mundial, veio baralhar este jogo, tornando-se um alvo a abater. Começando, logicamente, pelos elos mais fracos.

Para se perceber melhor a teia em que estamos enredados, é importante fazer também uma curta viagem às trevas dos “hedge funds”, os fundos especulativos que regem a grande economia e finança globais. Investem em tudo, das “commodities” (petróleo, cobre, café – tudo o que se extrai, cultiva e vende) aos títulos de dívida dos países.

No contexto internacional, aquilo a que eufemisticamente se chama os “mercados”, é dominado pelo peso esmagador de duas dúzias de gigantes gestores destes fundos, que geriam 520 mil milhões de dólares em 2009.

O maior destes tubarões é a J P Morgan, que valia 54000 milhões e faz parte do colosso americano J P Morgan Chase, o qual teve lucros em 2010 da ordem dos 17000 milhares de milhões.

Destes senhores do mundo especulativo existem 13 que são os maiores de todos: 9 são americanos e 4 são ingleses.

Dois terços dos dinheiros dos “hedge funds” estão em offshores, com as ilhas Caimão à cabeça (5% do total estão na Bermuda). Estes meninos são os verdadeiros donos do futuro de empresas, países, políticas e políticos. Tudo o resto é fantasia.

O que não é fantasia, mas uma dura realidade, é os países pequenos como Portugal terem políticos pequeninos, navegadores à vista, incapazes de perceber e controlar, dentro das competências que possuem, o endividamento externo e interno, fomentando uma produção de bens capaz de permitir que se viva dentro das nossas possibilidades.

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Vasco Garcia

 
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